CONTRAPONDO

Sou formado pela USP, mas o que eu gosto mesmo é de chupar um cu. Sabe dar aquela lambida nas pregas antes de enfiar a rola? Isso quando o cu ainda oferece alguma prega, que boa parte deles, pelo menos aqui no Jardim Piracanjuba, só oferece mesmo o grande olho negro, que nem sempre pisca. Ainda não vou me apresentar agora porque apresentações por mais informais que sejam, sempre geram alguma tensão quando é assim logo de cara. Vai aprendendo: cu logo de cara pode (inclusive o cu na cara): tensão não. Jamais. Até porque às vezes a tensão tira o tesão.

Bem ali
O lance é o seguinte: Estou aqui no meu banheiro chupando o cuzinho da Andressa, no meu quartinho de cortiço aqui no Jardim Piracanjuba, que fica próximo a Guaianazes. Ah, de Guaianazes você já ouviu falar né filho da puta? E aposto que torceu a cara. Pois é, muita gente torce, inclusive a galera que mora aqui e precisa pegar trem lotado todo dia. Esses chamam a estação de trem de “estação Satanazes” Pode um negócio desses? Mas voltando, estou aqui no banheiro do meu muquifo lambendo o cuzinho da Andressa, moça bonita e estudante do curso de jornalismo da ECA. É, eu fui lá hoje ver se o meu diploma tinha ficado pronto, demorei tanto pra me formar que quase jubilei naquela porra. E agora fiquei com pressinha pra pegar o diploma. Um absurdo. Essa é a cara que a mulher do balcão está após consultar meus dados acadêmicos em sistema. Sim, agora ela tem plena noção de que eu não fui um aluno com percurso dos mais exemplares na instituição. Nem precisava tanto, era só olhar bem pra mim.
– Moço, aqui que fica a secretaria acadêmica?
Olho pra trás e dou de cara com uma loirinha deliciosa, com cabelos cacheados, óculos de armação grossa, desses que dão um ar todo cult às pessoas. Os peitos, puta que pariu, os peitos se digladiando entre si para ver quem vai pular na minha boca primeiro, presos num sutiã de alcinhas pretas sob uma regatinha branca. A saia, estampada, longa, dessas de menina-bicho-grilo-que-acha-o-Transa-do-Caetano-o-máximo.
– Ah não, aqui é o setor onde cozinham jornalistas recém-formados, e julgam se os crápulas estão prontos para serem reintegrados à sociedade – gracejo.
– Hahaha bom saber, de qualquer forma vou evitar esse lugar pelos próximos 3 anos e meio. No mínimo.
Riu de cara = Simpatia espontânea = Vou pegar. Minha equação básica e fundamental. Uma das poucas que sei de cor.
A moça do balcão atropela sem perdão:
– Está aqui. Agora é só assinar no xis.
– Poxa, obrigado por avisar, corria o risco de eu assinar o tampo do balcão ao invés do documento, no campo ALUNO.
Antes que ela possa responder, dou meia volta, toco no ombro da lourinha.
– Vem, eu te levo até a secretaria acadêmica. De tanto sofrer por esses corredores nos últimos anos, conheço isso como a minha calejada mão.
Convenhamos. De calejada minha mão não tem nada. Só se for de punheta, mas com a sorte que venho tendo ultimamente, nem isso. Troquei a punheta pelas buceta. Assim mesmo, sem concordância. Que nem os rap do Emicida.
– É que eu estou no primeiro ano. E ainda não precisei ir à secretaria, estou perdidinha – e sorri com graça.
Ai, meu pau já latejando, como lá no Tejo, caso estejam as Ninfas, quase putas se lavando. Latejando.
– Ah, sei como é, mas logo logo essa Cidade Universitária vai ser pequena pra você – devolvo um sorriso cúmplice.
– Aliás, eu sou aluna de jornalismo também!
– E qual é o nobre nome da caríssima futura colega de profissão?
– Andressa. E o seu?
– Renato. Também conhecido por essas bandas como Costela
Caralho. Não ia te contar agora meu nome, caro leitor. Mas beleza, é isso aí. Me chamo Renato, mas não gosto muito desse nome. Me identifico bem mais com meu apelido, que ganhei às custas das costeletas que nunca abandono. O pessoal relaxa demais. No começo era costeleta, mas dá uma puta preguiça falar Cos-te-le-ta. Apelido tem que ser curto, então até admito que eu mesmo seja o grande culpado por transformar Costeleta em uma Costela. Está valendo. Da Costela já saiu uma mulher. Da costeleta não tenho conhecimento de ter saído nada tão bom. Logo, eu mesmo fui encurtando a coisa. Whatever. Andressa se precipitou em três beijinhos estalados no meu rosto, e pra ser sincero não achei nada mau quando os seios dela deram uma roçada de leve no meu peito.
Nesse nhem nhem nhem levei ela na secretaria, que ela precisava pegar uma autorização, ou era uma carteirinha para utilizar a biblioteca e pegar uns livros da USP Leste. Quando ouvi isso, foi se desenhando um breve rascunho de putaria na minha cabeça. De leve. La vita es full de possibilités, tá certo? Se não está, tenha certeza e fé de que ficará.
Da biblioteca, continuamos conversando, e o papo engrenou.
– Ah, eu ainda não sei bem que área especificamente do jornalismo vou seguir, sabe?
– Nem se preocupa com isso, no segundo semestre eu não sabia nem o que era um lead.
– Não brinca!
– Ah, fui entender a estrutura da coisa lá pro terceiro ano – e faço uns gestos exagerados. Ela ri.
Passa um camarada tão relaxado quanto eu com um grupo de meninas da publicidade. Eu o cumprimento ao longe. Joguei bola com esse cara há uns quatro anos, e já não éramos novos aqui à época. Ela se impressiona.
– Nossa como você conhece gente aqui!
– Que nada…
– Em meia hora você já cumprimentou umas trocentas pessoas.
– É uma cidade pequena.
Ela pega a sacada e ri gostoso. Que delícia. Se pegou minha sacada assim de primeira, imagina o meu socando? Renato Costela. Especialista em trocadilhos, prazer te conhecer também, caríssimo leitor.
O papo vai ficando bom quando ela olha para o relógio:
– Ah, eu preciso ir logo pra USP Leste. Dizem que lá é longe e eu nunca fui para aquelas bandas…
– Eu moro lá perto!
Mentiraaa… A Zona Leste é grande pra caraleo.
– Você me leva então? – os olhos brilham – Te confesso que nunca andei de trem – e ruboriza de leve as faces.
Aqui eu vou abrir um parêntese. Cara, eu amo os clichês. Porque eles provam que anos e anos em frente à TV não foram em vão. Com eles, nós temos uma margem de manobra enorme quando eles ocorrem na realidade. Você reproduz, contradiz, justapõe, faz a porra toda funcionar a seu bel prazer. É uma beleza. Quando os clichês somem, eu fico triste, minha vida fica uma bosta, e eu até mando um som de qualidade duvidosa, mas caráter clicheteiro unânime: “Cadê vocêêêê que nunca mais apareceu aqui? Que não voltou pra me fazer sorrir? Que não voltou…” Hahahá. Sabe qual é a graça da vida? A graça da vida é esculhambar. Mas para esculhambar legal e gostoso, é preciso conhecer os padrões. Porque ali as pessoas estão seguras: nos padrões. Os padrões são os pais dos clichês. E é aí, que entra o zombeteiro (eu): zoando a porra toda e rindo, e tirando a segurança das pessoas. Lógico que cada hora, local e pessoa exige um padrão (olha ele aí de novo!) de zombaria. E vai desde a mais discreta, clean, até aquelas que a família tradicional família mineira olha e fala: “QUE PORRA É ESSA?”
Voltando. Frente ao clichê da universitária que nunca pegou um trem, faço uma cara de solidário ao problema dela, dou um abraço meio de lado, aproveitando para dar uma roçada de nariz na nuca dela. E declaro de forma exagerada com a mão no peito e olhar voltado para o céu:
– Eu te protejo na sombria jornada à Zona Leste!
Esse lance do abraço e da roçada “acidental” é fundamental quando você quer pegar uma mulher. Ter bom papo e ainda assim ficar de braço cruzado é roça. Roça mesmo. Caixão. De braços cruzados e tudo mais, que é o que você merece se for mole assim. A mulher tá alegrinha, rindo das suas piadinhas mais infames (e você sabe que elas são infames, não seja auto-condescendente!), dando trela? Esbarra a mão na dela, procura um motivo pra comentar do brinco e aproveita pra passar a mão no rosto, brinca com o cabelo (o dela, não o seu, ô néscio). E assim você ganha espaço, se a mulher não foge do teu toque, arrisca no petisco mulheke!
Enfim, optamos por ir pelo Brás, que é a estação que mais opção de trem dá nessa porra de cidade. Pelo menos pra mim, que moro na ZL, ou Zelê, como uns maldosos da Pompéia falam. E eu realmente ia acompanhá-la até a porta da Universidade, seguindo o caminho certinho, quando ouvimos do alto falante da plataforma: “Informamos que a linha da CPTM 12, Brás – Calmon-Viana está paralisada devido a descarrilamento de trem próximo à estação São Miguel. Não há previsão para retorno das atividades”.
– Ah meu, puta merda. Eu tenho que entregar esse trabalho amanhã e o livro só tem lá.
Perfeito. Ataco.
– Tem uma opção, mas não sei se você vai querer…
– QUAL?
– Bem, podemos ir para Guaianazes. Lá perto de casa tem uma linha de ônibus lá pra USP Leste. Vai demorar um pouquinho mais, mas você chega lá tranqüila.
O sorrisão voltou ao rosto da Andressa. A ereção voltou à minha calça.
– Meu, você é um anjo. Veio do céu pra me ajudar no Butantã!
– Só se for do CEU de Guaianazes hahaha.
– Hã?
– Deixa pra lá.
Essa ela não pegou. Realidades muito diferentes,
E me deu mais um abraço, esse um tanto gratuito e até totalmente desnecessário caso ela não estivesse me dando mole. Taí. Ela ainda não sabe, mas vou levá-la pra conhecer o Jardim Piracanjuba.
Mais um parêntese aqui. Sabe o tipo de lugar zoado, mas zuuuadaaaaço, bagunçado mesmo? com IDH baixíssimo, córrego a céu aberto, posto de saúde totalmente sucateado para atender às necessidades diversas de uma população local cada vez mais doente, ruas ainda sem asfaltamento em pleno ano de 2012 na terceira maior cidade do mundo? Esse é o Jardim Piracanjuba. Bairro próximo a Guaianazes, cheio de corinthianos maloqueiros e sofredores (graças a Deus), que contribuem frequentemente com a renda dos jogos, e que no entanto não recebe um centésimo de todo o investimento que está sendo feito em Itaquera para a Copa do Mundo. Provavelmente essa legião do meu bairro nem conseguirá entrar no estádio tão sonhado do próprio time antes que todos os gringos tenham ido embora, levando nossa copa e um tanto de nossa dignidade. Mas bah, foda-se. Vamos falar da Andressa que é assim umas 300 vezes mais excitante que os problemas do Jardim Piracanjuba.
Já dentro do trem espanhol da linha Coral, estamos conversando de pé, encostados no fundo do vagão, quando decido ser um pouco mais ousado. Fecho meu semblante, faço cara de preocupado, e me calo olhando pela janela.
– O que foi? – Ela se preocupa.
– O quê?
– Você ficou calado de repente, Costela…
– É que eu tava aqui pensando… Te conheci hoje e já me vejo na obrigação de te dar algo.
– O quê?
– Isso.
E enfio um beijo na boca da loira gostosa. Eu sei, foi uma chegada boba, mas lembra o que eu estava falando de clichês e padrões? A mina já estava na minha, deu todos os sinais de que queria. Quando chega nesse ponto, tudo que é forma de chegar é certa. O único erro é não tomar atitude, e olha que tem cara que erra muito nesse aspecto, geralmente porque é tímido, fica matutando a melhor forma de fazer. Aí passa o momento e já era.
Voltando ao beijo. Começo sentindo a língua dela, que vem de encontro gostosa à minha. Ela beija muito bem e eu já imagino a língua dela no meu pau, que se transforma numa barra de halter por dentro do meu jeans quase que automaticamente. E o bacana é que a Andressa é do tipo que cola o corpo no seu quando beija, te buscando frontalmente.
Conforme a fui beijando, mantive a mão direita na cabeça dela, fazendo carícias na face, pegando a base do cabelo, e a esquerda eu liberei para a exploração. Como estávamos num canto do trem e com ela encostada na parede, as pessoas não conseguiam ver totalmente o que se passava com minha mão esquerda, que escorregou pelo centro das costas dela. Quando passou por seu Cóccix, ela estremeceu. Pensei: o caminho é por aí. Mas ainda estávamos na altura da Penha, e decidi vasculhar algo que eu ainda não tinha conseguido observar por conta da saia folgada de bicho-grilo dela: a bunda. Dei uma passadinha de mão de leve, meio que fazendo a pergunta de moleque maroto olhando pro Brigadeiro em cima da mesa: “posso?”, ela aproximou a traseira, prensando de leve as costas de minha mão na parede do vagão. As carnes contra a palma da minha mão. “Pode!”. Um belo sanduíche: Parede do vagão, palma da minha mão. E o bundão. Aliás um bundão mesmo; dada a permissão para pouso da mãozinha intrépida, passei a explorar, a forma, a textura, a consistência, e tudo indicava que o que havia ali debaixo da saia era épico. Uma aventura épica na bunda. É pica na bunda. Logo mais.
Enquanto nos beijávamos chegamos em Guaianazes. Arremato:
– Viu Andressa, eu ia te deixar aqui no ponto do ônibus USP Leste, mas tô com um tempo livre e posso te levar lá. Só vou deixar o diploma em casa e pegar uma conta que eu preciso pagar quando eu passar na lotérica na volta. Vamo lá em casa?
– Ah, mas eu tenho que ir logo, está ficando tarde…
Saco que ela está fazendo isso só pra valorizar o passe, para não dar uma de fácil.
– É rapidinho. Além do mais, essas bandas são perigosas que você não faz idéia… Não é a toa que a Zona Leste tem a fama que tem.
O argumento soa até mais sério do que precisava. Ela aceita sem pensar duas vezes, sacudindo a cabeça pra cima e pra baixo. Pegamos então o ônibus Jardim Piracanjuba e rumamos para o meu quartinho de Cortiço. No caminho ela percebe o quanto a paisagem vai piorando a cada esquina e não consegue esconder sua cara de medo. Decido agir para afastar os maus pensamentos (especificamente alguma vontade de voltar atrás que porventura viesse a lhe ocorrer): a beijo com gosto, e desço a mão das costas para o Cóccix. Mais tremores da parte dela. Insisto no ponto do corpo, e ela vai ficando mais louca, quase consigo sentir o cheiro da calcinha molhada por baixo da saia folgada. Olho de rabo de olho enquanto beijo para não perder o ponto de descer. E fico assim: mãozinha naquele ponto do corpo, olho no ponto de descer do ônibus, e pau a ponto de explodir.
Chegamos, e por sorte moro quase de frente para o ponto de ônibus, porque se tivesse que andar muito por minha rua tenho certeza que o tesão da Andressa seria vencido pelo medinho Burguês – com “B” maiúsculo mesmo – dela, que devia àquela altura disparar coisas como “eu sou maluca? O que eu tô fazendo com um maluco que eu nem conheço numa quebrada dessas? Só porque o cara é formado pela USP não quer dizer nada além de que vamos compartilhar a mesma instituição no currículo!” e coisas do tipo.
– Vai ser rápido né? – ela me questiona um tanto nervosa.
– Vai sim.
Abro o portão enferrujado do cortiço e gentilmente puxo ela pela mão pelo corredor até os fundos, lugar onde fica o meu quarto-banheiro. Fecho a porta atrás de nós, coloco o diploma sobre a mesa, e a agarro por trás. Beijo com vontade sua boca e subo a mão até seus seios. Levanto a regata junto com o sutiã, que revela dois seios bem formados, com auréolas rosáceas e bicos intumescidos, que me ponho a chupar com fervor, me alternando entre um e outro. Ela solta gemidinhos e logo já está com a mão no meu pau sobre a calça. Trato de liberá-lo para que ela chupe. Ela passa a língua sobre a cabeça do nervoso, e desce como um pincel pelo pescoço do animado. Quando volta já abocanha e emula os mesmos movimentos de língua do beijo, só que agora na chapeleta do meu palhaçote. Delícia. Livro ela da saia enquanto isso e encontro um par de coxas roliças, encimadas por uma calcinha preta cavada que em nada condiz com uma menina bicho-grilo. A coloco de costas e é o paraíso: que rabo fenomenal a criatura me exibe! Tá até explicado o saião folgado. Só pode ser pra não despertar a cobiça dos(as) incautos(as), que com olhares de raio laser de desejo e de inveja poderiam estragar aquela obra prima: Um rabo redondo, grande, que afinava em cima, no quadril, para se encontrar com a cintura, descia formando dois raios pertos, e afinava de novo embaixo para se encontrar com as pernas. Delícia. Juro que eu ia chupar aquela buceta primeiro, como os bons costumes da humanidade pregam. E como já disse, tenho uma formação bem humanista, uma vez que sou formado pela USP, só que mais do que possuir hábitos humanistas, gosto de chupar um belo cu. Desci a calcinha, abri aquela fruta em duas, quando ela já foi disparando:
– Se quiser comer o meu cuzinho, arruma um lubrificante.
– Tenho um aqui no banheiro – e a puxei junto comigo.
Mas lubrificante é o caralho, fala aí! Lubrificante é qualquer coisa: cuspe, manteiga, olho de cozinha, até KY serve rarará. Coloquei ela meio de quatro sobre a tampa da privada, ia batendo uma punheta com a direita, enquanto a esquerda usei para abrir os dois mundos em que logo me pus a esfregar a língua. Naquelas pregas ainda não castigadas.
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Pois é necessário fazer. Incendiar. Começar uma nova reação.

Próximo sábado (15/09/2012) lançarei meu romance de estreia, “Álcool e Fósforos no Fim do Túnel”. Falar das especificações técnicas é simples. Capa de papel fosco, miolo offset de folhas amareladas, 137 páginas, ou seja, curto. Tiragem limitadíssima de 100 exemplares dos quais serão vendidos 80. E só.

A sinopse também não dificulta: Igor Matacavallos, jovem de 25 anos, briga com a mãe, sai de casa, larga o emprego e começa a escrever um livro. Passa a levar a vida na loucura, mesmo já notando as dificuldades que se avizinham. Numa dessas conhece Marina, que provoca mudanças em sua vida.

A diferença real do romance é a forma como se apresenta: Igor, narrador em primeira pessoa, é um grande escapista: foge o tempo da história que está contando inserindo suas ideias e trechos do livro que está escrevendo. Fragmenta a narrativa ao máximo que pode. Age impulsivamente e remói as consequências. Tem dificuldade em se concentrar, mais dificuldade ainda em lidar com seus pais e seus problemas familiares. É um crítico ferrenho de sua geração e do estado em que vive, mas se vê obrigado a admitir que tudo aquilo que abomina é exatamente o que é.

Comecei o texto no segundo semestre 2008, na época estava iniciando meu projeto de conclusão de curso da PUC e vira e mexe me pegava abrindo um novo documento no word e escrevendo sobre o Igor Matacavallos. Um ano depois já havia terminado a graduação e abandonado o texto, até que conheci o Edu Moreira através de seu romance “O Jornalista”.  Além de fantástico, esse livro me inspirou a retomar o texto que havia abandonado. Com o tempo o Edu se tornou um grande amigo e apoiador. Essa foi a retomada, mas outra pessoa seria essencial nesse processo de construção, desconstrução, reconstrução: a pessoa que esteve presente durante todo o desenvolvimento do texto lendo, relendo, criticando e apoiando foi a Glaucia Costa, que era minha namorada no início do processo, depois nos separamos, voltamos (atualmente estamos juntos novamente), mas que em nenhum momento deixou de me apoiar, independente de como estávamos. Este livro é tão seu quanto meu, amor. Mais recentemente adquiri ainda mais aliados de peso: me reaproximei de um amigo da adolescência, o Thiago Lima, que atualmente é um dos mais brilhantes fotógrafos de que tenho conhecimento. Se você gostou da capa, elogie ele. A foto é de sua autoria. Aliás, não só a foto de capa, como o portrait da quarta-capa, e a capa do CD de estreia da minha banda (“Amanhã Nada” – Adeus Plutão), a sair se tudo der certo ainda este ano. Talento, companheirismo e atitude. São palavras que te definem Thico. Ícaro Lópes foi outra figura importante do processo, mas de forma indireta: ao conhecê-lo em 2010, reassumi posturas e atitudes que havia abandonado há muito tempo: de buscar novas referências nas artes, de exercitar o que sei e gosto de fazer, e principalmente de abandonar a vergonha de criar. A crítica é algo externo e posterior. Deixemos para outros! Valeu Ícaro! Já na fase editorial da coisa, minha grande aliada foi a Liliane Akamine da editora Livre Expressão, sempre disposta, sempre profissional, sempre com um pensamento crítico e à frente.

Encerrado o parágrafo dos agradecimentos, fica uma pequena reflexão minha sobre o “Álcool e Fósforos…”: ele foi a forma que eu encontrei de dizer que sim, há imaturidade, dúvidas e traumas, entre outras coisas em nossas vidas, mais especificamente em minha geração (a famigerada geração Y), e isso não é problema. O problema é não reagir, o problema é esperar passivamente a luz no fim do túnel. Por que a luz no fim do túnel não pode ser um incêndio? E por que não pode ser começado por você mesmo para os próximos que vierem? O álcool e o fósforo estão em suas mãos. A decisão é sua. Que tal tomar uma atitude e deixar para remoer suas consequências depois? Faz parte da dinâmica: ação e reação. Mas sem ação fica complicado esperar reação.

Processei montes de influências e vivências: Clube da Luta (filme e livro), Bukowski, Fábio Nenê Altro (compositor e vocalista do Dance of Days), Gutiérrez, Nick Hornby (Alta Fidelidade), Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cubas), The Beatles, J.D. Salinger (O Apanhador no Campo de Centeio), Cia Sutil de Teatro, Efraim Medina Reyes, punk rock, cristianismo, Samuel Beckett (Primeiro Amor), Max Mallmann (Síndrome de Quimera), teorias de comunicação, vivências minhas e de outras pessoas, imaginação, absurdos, mentiras e erros. Principalmente erros, que vão desde os do personagem na busca por suas verdades, quanto os meus, refletidos até mesmo no resultado final do livro, pois graças à minha pressa em “parir” o texto logo, uma quantidade considerável de erros passou despercebida na revisão. Culpa minha, assumo. Não me orgulho, mas também não me envergonho. São sobre erros que construímos acertos, certo? Pois bem, quando houver uma nova edição os corrigirei. É certo que não será em breve, mas cogito lançá-lo em versão e-book para o pessoal da leitura em tela, e até mesmo disponibilizar o arquivo do livro para download de graça em pdf. Por que não? Veremos.

Talvez este livro seja um erro, mas se for é um erro necessário. Pois é necessário fazer. Incendiar. Começar uma nova reação.

 

Foto de capa por Thiago Lima,
Arte final por Icaro Lopes

Álcool e Fósforos no Fim do Túnel

Lindolfo Roberto Nascimento

137 páginas

Editora Livre Expressão

Preço: R$ 25 (leve dinheiro trocado pois a venda não será em consignação com o bar)

Lançamento dia 15/09/2012 às 17h no Bar Roxo

Rua Augusta, 472 São Paulo – SP

Tiragem limitada de 80 exemplares (os primeiros a chegar levam)

Nascimento, crescimento, intervenção drástica e o que vier depois

Aquela noite ela estava radiante como nunca ousou estar em sua vida. Olhava para seu longo vestido branco e quase não conseguia acreditar que finalmente aquele momento havia chegado. Anos e anos de obstindada busca e sacríficios culminavam naquele ponto, naquela noite e naquela igreja. Naquele momento não importava se foi uma criança gorda e tímida, caçula de três irmãos que a reprimiam e a faziam chorar sem necessidade. Se na escola, mesmo na adolescência suas amigas apostavam que ela nunca encontraria um rapaz para si, dadas suas dificuldades com os garotos, e mesmo já entrando na fase adulta, vendo seus irmãos mais velhos já casados e com filhos, como conseguiria alcançar o ápice de sua vida enquanto mulher? Só conseguia encontrar uma palavra: obstinação. Com o tempo passou a se configurar uma obcecada pelo assunto, vendo vestidos em vitrines de lojas especializadas, colecionando recortes de revistas, pesquisando buffets, igrejas, salões de beleza, enfim, uma infinidade de coisas para o grande dia que um dia, ainda que indefinido, chegaria. Durante esta busca metódica e obssessiva, notava as uniões das amigas de trabalho, familiares distantes e até dos irmãos desabar: a cada mês tinha notícias de um novo divórcio, mas nem isso arrefeceu seu desejo, afinal, a vida é uma busca, e cada um tem a sua. A dela, era definitivamente esta, o enlace. Dado um certo momento, decidiu que precisava de um par. Afinal, não existe união de um. O problema é que nenhum relacionamento durava muito, pois mal começava a namorar, já tocava no assunto, e isso simplesmente afugentava os rapazes, mesmo os mais fortes candidatos ao cargo. Mas isso para ela não era problema: o noivo era apenas um elemento na equação, um elemento aliás, variável, totalmente oposto a ela, a constante. O fato é que ela era uma mulher muito bonita, e ao que tudo indicava, ao contrário de suas amigas invejosas, ficava mais bela e resplandescente a cada dia. E ao se olhar no espelho e se imaginar entre véus e grinaldas, isso só indicava que ela seria a noiva mais bela a pisar o tapete vermelho de uma igreja, isso de certa forma, era inegável. Tão inegável quanto o caráter insuportável de sua presença e seus julgamentos para os demais mortais. Não lhe bastava o melhor: para ela o ideal era o perfeito. E eis que surgiu aquele que lhe possibilitaria pôr finalmente seu plano em prática, e por consequência, definitivamente realizar seu sonho. Ele nem sequer era um elemento totalmente novo em sua vida, uma sombra apaixonada que no passado não representou muito, mas que evoluiu a ponto de não fazer feio perto dela no presente. Bastaria. Não tinha defeitos nem qualidades a seus olhos; até porque basicamente ignorava o amor que o moço cultivava por ela. Também não se podia acusá-la de interesseira ou materialista, uma vez que nunca procurou se aproveitar nem das condições de seus pretendentes anteriores quanto menos de seu agora noivo. O tempo voou entre preparativos para o grande dia de sua vida, e este finalmente chegou. Quando adentrou a nave da bela catedral, seu vestido exibia a candura e a leveza que jamais havia sido experimentada por qualquer outra noiva. Enquanto marchava para o altar, observava suas amigas, primas e irmãs de bocas abertas a admirá-la. Tinha certeza de que jamais foi exibida uma pele tão macia, um cabelo tão exata e cuidadosamente penteado, ou uma maquiagem tão bem aplicada. Não havia dúvidas de que naquele exato instante o centro da terra se moveu, e o eixou passou a descrever a rota de suas pernas. Haviam pessoas acompanhando seu caminhar, lhe pareceu que alguém chegou a ajeitar sua longa cauda, e sim, alguém a estava guiando, seu pai? Não importavam esses detalhes irrelevantes, tão irrelevantes quanto aquele que a esperava no altar e aguardava seu “sim”. Outro mero coadjuvante em seu grande dia. Foi até lá, ouviu todo o falatório do padre, seguiu todo o script necessário de acordo com a tradição, passando inclusive pelo que, para alguns, era a simbologia máxima da cerimônia, a troca de alianças, e por fim o beijo. Ao sair da igreja, fez questão de andar mais devagar do que havia entrado, sobrepujando com olhar vitorioso e sorriso cínico todas aquelas que duvidaram de sua vitória. Dado tudo isso ela poderia morrer naquele momento, mas não: tal fatalismo não se aplicaria à realidade. O ápice da vida e a ambição insistentemente alimentada confluem para uma decadência silenciosa.

 

 

Amy Hildebarn

Então chega de dor. Anos e anos com os olhos vendados, sem distinguir a divisa entre o pulo e o medo. Cada passo como se em falso,  a incerteza e a insegurança, muito maiores do que em  qualquer outra garota, aquelas, ditas comuns.  O processo de adaptação é longo e contínuo; ao menos traz benefícios para a vida toda,  entre eles, a sensibilidade aguçada.
O senso de beleza nasce da escuridão sabe? Para se chegar à beleza, é necessário muito choro, muita dor. A beleza EXIGE sofrimento, e o suga como um bebê de peito. Mas até a dor cessa. Não existe sofrimento para sempre, e se você sobreviver, como ela sobreviveu, bem, se você sobreviver,  vai parir luz.
A beleza após o sofrimento é para poucos.

Verdade obsoleta sobre a origem do sentimento

Eu sou o olho em chamas sobre o segredo que você tão bem guarda. O Facho de luz que perscruta a mais densa e descabida escuridão. Remexendo suas vergonhas, julgando seus atos em silêncio, provoco o refluxo dos sucos gástricos de sua gastrite nervosa. Não quero ser a simples anemia. Quero ser a crônica doença, para ao ver a solidão saltar para longe, poder ganchá-la e trazê-la de volta a sua vida.

– Volta pra mim. Me perdoa e vamos ser felizes.

O adubo animal sempre me pareceu muito mais eficaz que esse seu sorriso vegetal.

A Mulher e o Labirinto

Certo.  Falta pouco: mais um ano e você se forma. Bebe mais um pouco de café,  vira mais uma noite estudando, dá um último furo no encontro com os amigos. Isso, agora a Especialização. Um ano e meio passa rápido. Aproveita e faz umas horas extras. Logo vai dar pra pagar uma boa entrada naquele carro. Zero Km. Sabe por quê? Porque VOCÊ MERECE.  Seu esforço não será em vão.   Aliás, não só o carro: aquela viagem tão sonhada, aquele casamento almejado, o apartamento com varanda (apertado, mas aconchegante).
Toma um guaraná. Aguenta mais um pouco e mais tarde você relaxa. Isso se não for rolar aquela balada com o pessoal do trabalho. Eles não são VERDADEIRAMENTE seus amigos, mas é preciso fazer aquele network, além do mais, cadê seus verdadeiros amigos? Sumiram. Não entenderam sua busca pelo sucesso.  Às vezes você se acha meio que uma Eleanor Rigby moderna. Esquece, isso é loucura. Mas toma cuidado: os 30 estão logo ali, e até agora nem sombra de possibilidade de casamento pra você. Vai dar tudo certo. Toma essa pílula. Vai te ajudar a dormir. Vê se arruma um tempo pro Reiki e pro Yoga. Vê se consegue fazer uma dieta mais balanceada. E também não esqueça de comprar o Renew e  o Chronos, pois já estão surgindo suas primeiras linhas de expressão. Pára de chorar. Pára! O dinheiro está na conta, não está? Você pode comprar a roupa que quiser, a hora que quiser no shopping, não pode? Não exatamente a qualquer hora. Agora são duas da manhã. Mas olha pra sua bunda, que bunda maravilhosa você tem. Fala pra mim que as horas na academia foram em vão! Tem muito cara por aí querendo te comer.  Talvez não  afim de te entender,  formar uma família e ser feliz pra sempre, mas sempre tem um cara para algumas horas de diversão. Pára de chorar, porra! Você é uma vencedora, caralho!

DIETA PÓS-MODERNA PARA AS PASSIVIDADES COTIDIANAS

Conversas com pessoas que produzem nos inspiram a lutar contra as passividades. Hoje em uma palestra com cara de bate-papo com André Forastieri, (que além de ser hoje colunista do portal R7, desenvolve um trabalho respeitado com a Tambor, e foi um dos criadores da Editora Conrad, editora que em seus primórdios foi responsável pelo lançamento de muita coisa inédita/pouco publicada no Brasil, como Robert Crumb, Neil Gaiman e Bob Black, este na coleção Baderna) me pus a me auto-questionar sobre essas passividades a que nos permitimos cada vez mais nessa sociedade das telas.

Percebo que perco muito tempo em frente ao computador sem necessariamente produzir algo que tenha  relevância para o mundo ou pelo menos para mim. De fato, para alguém viciado em música, tem sido uma verdadeira mão na roda poder descobrir milhares de novas bandas, mas muitas vezes as esqueço na mesma velocidade que as descubro, e o que há de interessante no que descubro, quase não passo para frente. Por isso decidi criar uma “dieta” pós-moderna contra as passividades contemporâneas: ouvir ao menos um disco “clássico” (para a história da música) por dia; voltar a ler livros, ali, no papel, “no pêlo”; ir ao cinema assistir a um “não-blockbuster” sempre que possível, e não somente quando são lançados filmes da minha trinca favorita Almodóvar-Allen-Von Trier. Acho que até um teatro pode voltar a fazer sentido em minha vida de vez em quando. Por que não?

Nada disso exclui minhas horas de bobeira assistindo séries, navegando atrás de bandas indies e vendo gracinhas compartilhadas via imagens no facebook e videos no Youtube, pelo contrário; apenas tem a intenção de balancear a diversão com um modo diferente de produção de repertório. E pra falar a verdade, uma ou outra dessas mudanças até venho adotando timidamente há algum tempo, mas sinto ser necessário reassumi-las de fato, como bons hábitos que o desleixo vai nos tirando com o passar do tempo. E entendam: essas são questões de importância PARA MIM. Nem espero que outras pessoas pensem ou ajam da mesma forma.Vejamos se essa letargia que me toma diariamente em frente ao computador me permitirá seguir com sucesso (ainda que mínimo) essa dieta.

Meias-Calças, Chet Baker e Garrafas de Quilmes Esvaziadas

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Ainda sonho com um certo tipo de mulher. Um tipo raro de mulher, mas que, como diz Samuel Rosa em sua música, “fecha com meus sonhos como ninguém” (porra, SKANK? Não me vem a cabeça nenhuma citação melhor que SKANK? Não. Não nesse caso). Ela é fã de Radiohead, e entende a importância que esses caras tem para a música contemporânea. Ela é apaixonada por cinema, e mais especificamente tem uma admiração incondicional e absoluta pelo cinema de Quentin Tarantino. Ela sabe vestir saia jeans com meia-calça preta e sandálias do tipo Melissa, e faz isso com um charme sem igual. Ela combina toda sofisticação de quem nasceu com o bom gosto, com o jeito natural e espontâneo de quem come comidas gordurosas com a mão e se diverte com videogames como um moleque. Seu nome, apesar de não ser incomum, aos meus ouvidos soa belo e profundo, quase doído, como quem soma o som que Chet Baker fazia, com doente em inglês e adiciona a isso um simples “a”. Enigma.

Essa mulher sonha em conhecer o mundo, é tatuada e alta. Essa mulher me fará fumar todos os cigarros do universo enquanto a espero para uma simples cerveja, uma Quilmes, ou Stella Artois. Eu terei ciúmes de todos os seus amigos homens, até mesmo de seus amigos gays, e não por ser inseguro, muito pelo contrário, mas por ter certeza de que outra como ela eu não encontrarei nem se eu buscar por todas as baladas, por toda São Paulo, por todo o mundo (incluindo aí Londres, Amsterdã, Manchester, Paris e Liverpool). Outra como ela eu só encontrarei na literatura. E isso, só no dia que eu escrever um livro baseado nela.

Falaremos em códigos. E nos entenderemos com simples olhares. Até lá eu viverei de comida congelada, mas no dia que estivermos juntos, ela me ensinará a comer comida japonesa. Sabe por quê? Porque para mim, todas as pessoas que comem “no japonês” são esnobes idiotas. Mas ela não. Quando ELA come peixe cru com molho shoyu, tudo faz sentido.
Como nem tudo são flores, observarei ela surtando com tudo na TPM: desde a cantada  que ouviu de um pedreiro na rua ao voltar pra casa, até a tampa da privada que eu deixei levantada. Vou sorrir calado, o que a deixará ainda mais puta da cara.

Não sei se moraremos juntos. Não sei se a encontrarei semanalmente pela Rua Augusta. Só sei que deixarei de louvar meus deuses da vida e da estante (Thom Yorke, Charles Bukowski, Ellioth Smith, os Beatles, Efraim Medina Reyes, Chico Buarque, J. Mascis, Hermes e Renato, Monty Pithon, Woody Allen e Björk) para amar somente a ela. Na cama. No café da manhã. No almoço e na janta.

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ESPIRITUAL GUERRILHA OFFLINE (parte 1)

Eu precisei esvaziar as garrafas para ter do que sentir falta. Voltei meus olhos para as migalhas de comida espalhadas pelo balcão da cozinha, e não fossem os restos, fragmentos inúteis do que ficou, sinceramente nem me lembraria de tudo que havia se passado. Peguei algumas poucas mudas de roupa, coloquei em uma sacola de supermercado – dessas ecologicamente corretas que tanto utilizamos agora – e parti para a casa dela.
No caminho refleti sobre o impacto da primeira vez. A primeira vez sempre é dolorida. Existe a vergonha, o medo do desconhecido, e também a excitação pelo novo, é claro, mas principalmente o medo do desconhecido. Depois da primeira vez, o impacto passa batido como tudo com o que já não nos importamos tanto. Chegando à casa dela, sou recebido com uma indagação no mínimo estranha:

– Você lavou bem as mãos ao sair de casa?

–  Acho que sim. Por quê?

– Não quero que você toque em minha argila com as mãos sujas. A minha argila é sagrada, e quero mantê-la longe das impurezas – não tenho certeza se captei completamente o sentido da mensagem que ela quis me passar, mas pela seriedade que ela transmitiu no olhar decidi não fazer nenhum tipo de questionamento direto. Ainda assim, não me contenho e solto o que há de mais óbvio circundando minha cabeça:

– Pensei que íamos fazer sexo.

– Faremos algo muito melhor do que sexo. Acessaremos nossas ancestralidades através da atividade produtiva com argila. Quando terminarmos, teremos nos tocado e conhecido mais profundamente do que se tivéssemos ido para a cama juntos.

Então ela me guiou por um corredor bem iluminado, com plantas pendendo de vasos das paredes, em direção a um quarto escuro. Senti medo e excitação. Infinitamente mais do que se estivéssemos caminhando para mais um foda gostosa e banal, havia lascívia naquele mistério todo, e por esse mesmo motivo me senti diferente; desnudo, moleque de tudo. Analfabeto.

Entramos no quarto. Ela me indicou o chão em frente ao monte de barro, que se encontrava centralizado, como um monte, apontado para cima:

– Senta.

Sem ver outra alternativa, me sentei. Ela abaixou-se, e sentou-se à minha frente, tendo o monte de barro entre nós. Pegou minhas mãos, colocou sobre o monte de barro, pôs o mecanismo rústico que dava suporte à argila para girar, e em seguida colocou suas mãos sobre as minhas. Foi nesse momento que senti.

Olhei bem fundo em seus olhos castanhos. Ela, segura de si, como só quem conhece os meandros do que faz é, me retribuiu o olhar como quem encontra uma nascente onde falta água. Senti vórtices de sensações: a argila fria em meus dedos me fez lembrar de jogos de criança; dos banhos de chuva e lama como algo novo, único e excitante; da descoberta de um alçapão sobre o último reservado do banheiro da escola primária, que dava acesso a uma sala escura de maquinários antigos, em que mistérios residiam calados pelo tempo; do calor do primeiro beijo escondido, e do prazer do contato com a primeira vagina. Sensações transcendentais movidas pelo ineditismo. Nascemos para descobrir, desbravar, nos surpreender.

– Agora sente a argila. Ela é uma pele. Ela é carne, vida, corpo.

Me concentrei ali, tentando pôr de lado minhas sensações, e o que houve foi o surgimento de uma pulsação em minhas mãos: eu sentia a argila, e sentia já não somente a mão dela na minha, mas todo o seu corpo: o calor de seu útero, o conforto de seu colo, a maciez de seus pés. Seu corpo nu, cru, que cheira a amor, café novo recém-torrado, moído e passado: sua pele negra, seu espírito livre, e então me senti mais homem também: completo, masculino, não discordante; embriagado pela alegria e paz de espírito. Entre lágrimas de felicidade pouco pude dizer:

– Me leva pra onde você quiser. – mas ela retrucou:

– Quem decide é você. O impulso é seu.

– Vamos para a gruta. Andar entre estalactites mais velhas que a humanidade. Adentrar a mais profunda escuridão. Mergulhar nas águas gélidas. E gozar infinitamente, fundindo nossos corpos, envoltos pelas lágrimas de Deus.

Com a argila nos unindo feito cola, ouvi o pesado movimento do ponteiro do relógio que é o meu corpo sobre o dela, marcando a rotação fatal: a aceitação divina de seu abraço, que não retorna, que não questiona.

      Lindolfo R. Nascimento

      São Paulo, 28/12/2011