Rápido diálogo sobre o amor
- O fato é que já não dava mais.
– Não dava mais, ou você não queria que desse?
– Que diferença faz? Quando a gente pensa em foder, a gente pensa em amar, só não admite pra si mesmo. E por mais curta que seja a foda, ali está o amor: Amor de elevador. Amor de banco de trás do carro. Amor de cinco minutos em banheiro de balada. Todo sexo é amor, e se você não quer mais sexo com alguém, você já não ama essa pessoa.
– Não é o conceito mais difundido de amor que já ouvi, mas acho válido seu raciocínio. Inicialmente aceito apenas para fugir da lógica unâmime, e nos salvar pela ótica de Nelson Rodrigues. Mas, e os amores eternos? E os amores à primeira vista?
– Tão conscientes e improváveis quanto a fé. Existirão enquanto houver quem acredite neles. E benditos sejam esses crentes, pois cumprem toda uma quota que libera o restante da humanidade dessas utopias.
– E as pessoas que amam à distância? Estão privadas do amor simplesmente por não terem a possibilidade do prazer carnal?
-Vamos pensar em pessoas separadas pela distância então. Eu jamais diria que estas estão impossibilitadas de amar, mas sim de amar em sua plenitude enquanto existir distância. A distância é um fetiche dos mais poderosos. Tal qual é o azeite a encher um vaso para os cristãos, é a distância a encher o amor de tesão para um sofredor. O amante à distância é antes de mais nada um idealista, que se consome, que se reconstrói. Que arde em si. Os gritos silenciados em sua alma são gritos sufocados de alcovas, do mais proibido prazer, do mais ultrajante e sincero desacato, mas que só pode dar vazão a tudo isso quando reencontra seu par. Já tu, o que pensas?
– Não entendo minha natureza. Por isso deixo que me digas.
