
Minha relação com o Radiohead começou no início de 2001. Na época eu havia lido uma crítica do disco KID A na edição de alguns meses antes de uma determinada revista masculina, e fiquei encabulado com a expressão “rock espacial”. E as impressões do jornalista de que parecia que o Radiohead havia viajado para Marte para compor o disco e etc, etc, etc só serviam para me deixar ainda mais encabulado. Sim, pois eu já conhecia “Creep”, “Fake Plastic Trees” e “No surprises” da MTV, mas os tempos eram outros, e eu, um moleque de 14 anos sem mesada e sem as facilidades da internet, não tinha como correr atrás de um disco daquela banda do vocalista feio para ouvir inteiro e tentar entender se o que o crítico escreveu fazia sentido ou não. Foi então, que um certo dia fui dormir na casa de minha tia, e ao acordar e ligar a TV em um canal a cabo, me deparo com a exibição do show da tal banda. E eu não conseguia acreditar no que via: um som completamente diferente de tudo que eu já havia ouvido: climático, denso, indecifrável, e muito, mas muito original. Vi aquele vocalista franzino com cara de louco em transe no palco dançando atrelado a um instrumento estranho que mais parecia uma caixa, e fiquei maluco imaginando o ponto de interrogação dos críticos ao tentar descrever aquilo. Simplesmente não dava. Daí as loucuras espaciais. Dessa manhã, fiquei com três palavras na cabeça: “Idioteque”, ”Optimistic” e a senha para elas: KID A.
Cheguei em casa maluco e comecei a falar sem parar para um amigo meu, que havia me revelado pouco tempo antes que gostava de uma música de um comercial de crianças com síndrome de down, mas que não sabia de quem era a canção. Eu havia matado a charada e emprestado para ele uma fita com a tal música, que eu tinha gravado direto do rádio, entre várias outras coisas . Ali eu comecei a infernizar ele que precisava porque precisava ouvir esse tal de KID A. Ele como já trabalhava, decidiu me dar o tal CD de aniversário. Não deu outra: no dia 18 de fevereiro eu ouvia o tal disco pela primeira vez. Foi a tesoura que cortou os lacres dos meu ouvidos.
Algumas pessoas não gostaram. Outras idolatraram. Tempos depois, uma amiga me disse que eu estava tentando me convencer que o disco era bom só porque o Radiohead já havia lançado discos maravilhosos como o The Bends e o Ok Computer. Eu me revoltei: ”Como? se o Kid foi o primeiro que eu ouvi?”
Porque sim, eu tinha vontade de ouvir a “trilogia clássica” do Radiohead, mas sem o empurrão do Kid A ladeira abaixo, nada teria acontecido. Foi quando esse meu amigo que me deu o KID A decidiu se abastecer de Radiohead também, e comprou o OK COMPUTER e o THE BENDS. Aí era um tal de vai-e-vem desses CDs que as bolachinhas ficaram até gastas. Depois vieram, o AMNESIAC e o registro ao vivo I MIGHT BE WRONG, e já não tinha mais volta. Essa minha amiga no meu aniversário seguinte me presenteou com o PABLO HONEY, atestando o estado crônico da minha doença. Passam-se mais alguns anos e um outro amigo me presenteou com o HAIL TO THE THIEF em meu aniversário. Uau, só agora me dei conta de que ganhei 3 CDs do Radiohead em 3 aniversários diferentes, e de 3 amigos diferentes. Uau. Obrigado, vocês moram no meu coração por isso.
Depois veio a saga para conseguir comprar o COM LAG (importado japonês de lados B do Hail To The Thief) de um camelô do centro a preço de CD nacional, bem como a aquisição do IN RAINBOWS importado usado para descobrir poucas semanas depois que o tal CD havia saído em edição nacional. No fim acabou saindo o mesmo preço, porque como o importado estava usado, o vendedor da Galeria do Rock deu um desconto à base de choro.

Mas pra que toda essa história?
Porque recentemente eu fiquei emocionado com a descoberta do lançamento das edições DELUXE dos 6 primeiros discos de estúdio da banda (sim, os que foram lançados pela EMI/Parlophone). Todos contendo o CD original, um CD de lados B, e um DVD com extras. O preço é escrotamente alto, mas graças às facilidades da internet, consegui baixar todos sem maiores dificuldades. E confesso que me emocionei com uma nova decoberta de uma banda que eu me julgava já tão conhecedor. Os CDs Bônus (os de número2) nos brindam com lados B de singles já conhecidos pelos aficcionados da primeira fase da banda, como “Banana Co”, “Palo Alto”, “Talk Show Host”, “Maquiladora” e “Pop is Dead”; com jóias desconhecidas como as maravilhosas “The Amazing sounds of Orgy” e “Polyethylene (parts 1 & 2)”; com versões diferentes de músicas já bem conhecidas dos fãs, como uma versão dub para “Climbing up the Walls”, e a versão US para “Stop Whispering”. Além de versões ao vivo, participações em programas da BBC, remixes e versões acústicas. Apesar de ser uma jogada ressentida da gravadora (que perdeu a mina de ouro de Oxford), esses lançamentos são de um valor inestimável para os fãs, e acaba fazendo ainda que contra a vontade, com que TODOS os discos oficiais da banda já lançados até agora sejam duplos. Afinal, mesmo independentes e antes dessa série Deluxe, eles já haviam lançado o In Rainbows em versão dupla. Que aliás, que CD2 primoroso, diga-se de passagem: “Go Slowly deveria entrar para qualquer lista de mais belas canções tristes desse mundo (ou de qualquer outro mundo, já que o Radiohead é espacial para alguns).
Abaixo um breve resumo do que o espera em cada CD Bônus:
PABLO HONEY: 22 faixas. Versões demo, live, acústicas, apresentações no Evening Sessions da rádio BBC, lados B e inéditas.
THE BENDS: 21 faixas. Composto principalmente de lados B e inéditas, mas com algumas versões acústicas, “Maquiladora” na BBC e takes diferentes de “Street Spirit (fade out) e “Bones”. Muitas faixas que ficaram de fora do álbum lançado à época.
OK COMPUTER: 15 faixas. Praticamente metade é de inéditas, mas há também versões ao vivo e na BBC, além de remixes. Destaque para as já citadas ”Climbing Up The Walls (Fila Bazilia Remix)” e “Polyethylene (parts 1 & 2)”.
KID A: 13 faixas. Sem canções inéditas, é inteiramente constituído de versões ao vivo, ao vivo em estúdio e participações em programas de rádio.
AMNESIAC: 15 faixas. Mezzo canções inéditas, mezzo versões Ao vivo. Com “Life in a Glass house (Full Lenght Version)” dividindo o bolo.
HAIL TO THE THIEF: 13 faixas. Aqui a gravadora pegou o COM LAG que era um cd de lados B e versões do Hail To Thief lançado originalmente de forma exclusiva para o mercado japonês, e o incorporou ao pacote como CD Bônus. Deve ter sido o mais simples de compilar, pois já estava compilado: Remixes (“Remyxomatosis” e “Skttrbrain”), first demo (“There there” 7 minutos, e beem diferente da versão final que conhecemos, mas que dá uma ideia de como nasce uma ótima canção), ao vivo ( “2+2=5″), canções inéditas (“Paperbag Writter”, entre outras), registro ao vivo acústico de música inédita (“Fog”) e até instrumental (“I am Citizen Insane”).
Posso dizer sem medo de me arrepender que 2009 foi um ano ótimo para mim musicalmente falando: vi esses caras ao vivo após anos de espera, e foram lançados esses CD’s que revelaram pra mim dezenas de canções maravilhosas, além de congregar algumas outras que eu tinha ouvido apenas de forma furtiva. Não é que esses executivos oportunistas de gravadora, ao contrário da Courtney Love, às vezes fazem algo legal? De volta para 2001…
PS: Não colocarei os discos para download porque esta não é a proposta do blog, mas com uma simples busca no google contendo as tags, “radiohead”, “deluxe”, “download” e “blog”, é possível encontrá-los. E vale a pena. Como vale.