Eu confesso que sou bem chegado numa versão diferente/inusitada de alguma canção conhecida e também num bom cover. Pois bem, vamos ao que aconteceu nos últimos dias nas apresentações de algumas bandas no mundo:

O Pearl Jam entrou no espírito do Halloween no show do dia 31 de Outubro e se travestiu na lendária banda DEVO, com direito a performances estilo robô e Eddie Vedder de óculos “fundo de garrafa” durante a cover de “Whip it”

O Monsters Of Folk me surpreendeu totalmente com a cover deles no Halloween, ao ouvir o CD de estréia  - homônimo – do coletivo de músicos da cena indie, não me passou nem de perto a ideia de que esta mesma banda seria capaz de se fantasiar de KISS e mandar uma cover de “Detroit Rock City”. Uau.

Já o Weezer, com seu recém-lançado Raditude três dias antes em NY , e a atitude mais gozadora do mundo, que aliás, é o comportamento da banda já a algum tempo, não se fantasia como os homenageados, mas mandam uma cover muito boa da polêmica “Viva La Vida” do Coldplay. O detalhe interessante é que Rivers Cuomo não se deu nem ao trabalho de “decorar” a letra, e canta olhando no papel. No início tem um jeitão de karaokê. A minha dúvida no fim das contas é: É homenagem ou é gozação?

Fonte: entre outros blogs, vi no Dominódromo.

Oasis p e b

Ainda não estou totalmente convencido sobre este fim do Oasis. Sei lá, o Oasis é uma banda com um vasto histórico de desavenças (entre os Gallagher, com outros integrantes, e com a imprensa). E já foi noticiado um fim antes. Sim, deve-se levar em consideração o fato de que eles estão na ativa já a bastante tempo, e que certos desgastes são mais do que comuns. Mas me recordo que há poucos meses, os Gallagher haviam anunciado que a banda não lançaria nada pelos próximos cinco anos.

Aí é que está. Eu acredito nesta pausa, mas não no fim. O maior problema do Oasis foi não ter dado “um tempo”, ou mesmo “acabado” no auge. Ao lançarem o disco de grande potencial, mas de efetivo constrangimento Standing On The Shoulders Of Giants (2000), sem sequer estarem com uma formação completa, muito do que poderia ser a continuidade brilhante da discografia da banda, foi para a sarjeta. E para recuperar, são longos e longos anos, com tentativas nem sempre totalmente bem sucedidas. Uma prova de que o “Standing” poderia ser algumas vezes melhor do que foi, é o registro ao vivo Familiar To Millions, lançado na sequência e  com formação já definida e estabilizada. Ali, canções como “Go let it out”,  ”Gas Panic” e “Who Feels Love?” mostram o verdadeiro potencial desperdiçado em estúdio. Excluo “Fuckin’ in The Bushes” da crítica, pois já no álbum original ela se mostra magnífica (a única talvez).

Os discos que vieram na sequência vinham conseguindo recuperar um pouco da qualidade deixada nos anos 90; Heathen Chemistry (2002) demonstrou uma sincera vocação para hits radiofônicos, com “Stop Crying in Your Heart Out”, “Little by Little” e “Songbird”, mas o restante do álbum não demonstrava a mesma expressão. E pouco a pouco a moral da banda com a crítica foi melhorando: com Don’t Believe The Truth (2005) lembro de ter lido resenhas bastante entusiasmadas com o álbum como um todo; a expressão “o melhor desde Be Here Now (1997)” era lugar comum à época. Dig Out Your Soul, do ano passado me surpreendeu com a qualidade do primeiro single, “The Shock of the Lightning”, mas é, mais uma vez, um trabalho irregular, com muitas ótimas canções e algumas fracas.

Outro aspecto importante de se notar são as apresentações da banda: o Oasis desde sempre foi uma banda com performance zero, que se segurava em palco graças à qualidade das canções e às execuções amparadas pela capacidade técnica de seus músicos.  A capacidade dos músicos certamente não piorou, mas com a transformação do repertório da banda, muita coisa se perdeu em comparação com as turnês do fim dos anos 90.

As expectativas dos irmãos Gallagher de voltar ao topo do mundo foram se provando cada vez mais infundadas, e isso certamente gerou desgastes, até mesmo pelo tempo de exposição da banda. Nenhum grupo passa impune a tantos anos sem interrupções no trabalho ou mudanças na forma de se fazer esse trabalho . A minha conclusão é de que o Oasis volta. Não importa se daqui a 5 ou 10 anos, porque o Oasis é uma espécie de banda em extinção. Dinossauros com guitarras que para o bem ou para o mal, não se atualizam e continuam a gravar disco após disco, sem se importar com as mudanças do mundo.

radiohead table

Minha relação com o Radiohead começou no início de 2001. Na época eu havia lido uma crítica do disco KID A na edição de alguns meses antes de uma determinada revista masculina, e fiquei encabulado com a expressão “rock espacial”. E  as impressões do jornalista de que parecia que o Radiohead havia viajado para Marte para compor o disco e etc, etc, etc só serviam para me deixar ainda mais encabulado. Sim, pois eu já conhecia “Creep”, “Fake Plastic Trees” e “No surprises” da MTV, mas os tempos eram outros, e eu, um moleque de 14 anos sem mesada e sem as facilidades da internet, não tinha como correr atrás de um disco daquela banda do vocalista feio para ouvir inteiro e tentar entender se o que o crítico escreveu fazia sentido ou não.  Foi então, que um certo dia fui dormir na casa de minha tia, e ao acordar e ligar a TV em um canal a cabo, me deparo com a exibição do show da tal banda. E eu não conseguia acreditar no que via: um som completamente diferente de tudo que eu já havia ouvido: climático, denso, indecifrável, e muito, mas muito original. Vi aquele vocalista franzino com cara de louco em transe no palco dançando atrelado a um instrumento estranho que mais parecia uma caixa, e fiquei maluco imaginando o ponto de interrogação dos críticos ao tentar descrever aquilo. Simplesmente não dava. Daí as loucuras espaciais. Dessa manhã, fiquei com três palavras na cabeça: “Idioteque”,  ”Optimistic” e a senha para elas: KID A.

Cheguei em casa maluco e comecei a falar sem parar para um amigo meu, que havia me revelado pouco tempo antes que gostava de uma música de um comercial de crianças com síndrome de down, mas que não sabia de quem era a canção. Eu havia matado a charada e emprestado para ele uma fita com a tal música, que eu tinha gravado direto do rádio, entre várias outras coisas . Ali eu comecei a infernizar ele que precisava porque precisava ouvir esse tal de KID A. Ele como já trabalhava, decidiu me dar o tal CD de aniversário. Não deu outra: no dia 18 de fevereiro eu ouvia o tal disco pela primeira vez. Foi a tesoura que cortou os lacres dos meu ouvidos.

Algumas pessoas não gostaram. Outras idolatraram. Tempos depois, uma amiga me disse que eu estava tentando me convencer que o disco era bom só porque o Radiohead já havia lançado discos maravilhosos como o The Bends e o Ok Computer. Eu me revoltei:  ”Como? se o Kid foi o primeiro que eu ouvi?”

Porque sim, eu tinha vontade de ouvir a “trilogia clássica” do Radiohead, mas sem o empurrão do Kid A ladeira abaixo, nada teria acontecido.  Foi quando esse meu amigo que me deu o KID A decidiu se abastecer de Radiohead também, e comprou o OK COMPUTER e o THE BENDS. Aí era um tal de vai-e-vem desses CDs que as bolachinhas ficaram até gastas. Depois vieram, o AMNESIAC  e o registro ao vivo I MIGHT BE WRONG, e já não tinha mais volta. Essa minha amiga no meu aniversário seguinte me presenteou com o PABLO HONEY, atestando o estado crônico da minha doença. Passam-se mais alguns anos e um outro amigo me presenteou com o HAIL TO THE THIEF em meu aniversário. Uau, só agora me dei conta de que ganhei 3 CDs do Radiohead em 3 aniversários diferentes, e de 3 amigos diferentes. Uau. Obrigado, vocês moram no meu coração por isso.

Depois veio a saga para conseguir comprar o COM LAG (importado japonês de lados B do Hail To The Thief) de um camelô do centro a preço de CD nacional, bem como a aquisição do IN RAINBOWS importado usado para descobrir poucas semanas depois que o tal CD havia saído em edição nacional. No fim acabou saindo o mesmo preço, porque como o importado estava usado, o vendedor da Galeria do Rock deu um desconto à base de choro.

9

Mas pra que toda essa história?

Porque recentemente eu fiquei emocionado com a descoberta do lançamento das edições DELUXE dos 6 primeiros discos de estúdio da banda (sim, os que foram lançados pela EMI/Parlophone). Todos contendo o CD original, um CD de lados B, e um DVD com extras. O preço é escrotamente alto, mas graças às facilidades da internet, consegui baixar todos sem maiores dificuldades. E confesso que me emocionei com uma nova decoberta de uma banda que eu me julgava já tão conhecedor. Os CDs Bônus (os de número2) nos brindam com lados B de singles já conhecidos pelos aficcionados da primeira fase da banda, como “Banana Co”, “Palo Alto”, “Talk Show Host”, “Maquiladora” e “Pop is Dead”; com jóias desconhecidas como as maravilhosas “The Amazing sounds of Orgy” e “Polyethylene (parts 1 & 2)”; com versões diferentes de músicas já bem conhecidas dos fãs, como uma versão dub para “Climbing up the Walls”,  e a versão US para “Stop Whispering”. Além de versões ao vivo, participações em programas da BBC,  remixes e versões acústicas.  Apesar de ser uma jogada ressentida da gravadora (que perdeu a mina de ouro de Oxford), esses lançamentos são de um valor inestimável para os fãs, e acaba fazendo ainda que contra a vontade, com que TODOS os discos oficiais da banda já lançados até agora sejam duplos. Afinal, mesmo independentes e antes dessa série Deluxe, eles já haviam lançado o In Rainbows em versão dupla. Que aliás, que CD2 primoroso, diga-se de passagem: “Go Slowly deveria entrar para qualquer lista de mais belas canções tristes desse mundo (ou de qualquer outro mundo, já que o Radiohead é espacial para alguns).

Abaixo um breve resumo do que o espera em cada CD Bônus:

PABLO HONEY: 22 faixas. Versões demo, live, acústicas, apresentações no Evening Sessions da rádio BBC, lados B e inéditas.

THE BENDS: 21 faixas. Composto principalmente de lados B e inéditas, mas com algumas versões acústicas, “Maquiladora” na BBC e takes diferentes de “Street Spirit (fade out) e “Bones”. Muitas faixas que ficaram de fora do álbum lançado à época.

OK COMPUTER: 15 faixas.  Praticamente metade é de inéditas, mas há também versões ao vivo e na BBC, além de remixes. Destaque para as já citadas  ”Climbing Up The Walls (Fila Bazilia Remix)” e “Polyethylene (parts 1 & 2)”.

KID A: 13 faixas.  Sem canções inéditas, é inteiramente constituído de versões ao vivo,  ao vivo em estúdio e participações em programas de rádio.

AMNESIAC: 15 faixas. Mezzo canções inéditas, mezzo versões Ao vivo. Com “Life in a Glass house (Full Lenght Version)” dividindo o bolo.

HAIL TO THE THIEF: 13 faixas. Aqui a gravadora pegou o COM LAG que era um cd de lados B e versões do Hail To Thief lançado originalmente de forma exclusiva para o mercado japonês, e o incorporou ao pacote como CD Bônus. Deve ter sido o mais simples de compilar, pois já estava compilado: Remixes (“Remyxomatosis”  e “Skttrbrain”), first demo (“There there” 7 minutos, e beem diferente da  versão final que conhecemos, mas que dá uma ideia de como nasce uma ótima canção), ao vivo ( “2+2=5″), canções inéditas (“Paperbag Writter”, entre outras),  registro ao vivo acústico de música inédita (“Fog”) e até instrumental (“I am Citizen Insane”).

Posso dizer sem medo de me arrepender que 2009 foi um ano ótimo para mim musicalmente falando: vi esses caras ao vivo após anos de espera, e foram lançados esses CD’s que revelaram pra mim dezenas de canções maravilhosas, além de congregar algumas outras que eu tinha ouvido apenas de forma furtiva.  Não é que esses executivos oportunistas de gravadora, ao contrário da Courtney Love, às vezes fazem algo legal?   De volta para 2001…

PS: Não colocarei os discos para download porque esta não é a proposta do blog,  mas com uma simples busca no google contendo as tags, “radiohead”, “deluxe”, “download” e “blog”, é possível encontrá-los. E vale a pena. Como vale.

camisa_flanelajpg

Pois é né, existe aquela teoria de que a música pop sempre volta 20 anos para o passado:  Nesta década que já se finda, as principais novidades musicais como o Strokes,  o Interpol, o CSS, entre outros, se inspiraram em algumas das vertentes musicais do som dos anos 80. O que de fato aconteceu: em qualquer balada indie o que mais se ouviu e se ouve é, ou as novidades de inspiração retrô, ou os próprios fantasmas dos 80 como Cindy Lauper, Smiths, Cure e Billy Idol (só para citar alguns). As roupas então, nem falo nada, mas aquele lance da Madonna de dançar com roupa de ginástica na divulgação do Confessions on a dance floor já diz muita coisa (teve até quem SE revisitou).

E  durante os próprios anos 80, muito do que foi  respirado, como alguns discos do R.E.M.,  tinha clara influência do Powerpop dos anos 60. Bem como nos 90 o grunge do Alice Chains carregava uma certa aura pesada do Metal setentista. Ou mesmo as canções de Kurt Cobain, com sua agressividade punk.

Uma coisa que um jornalista da Rolling Stone (não lembro qual) escreveu, e que até então não tinha me dado conta, é o fato de que muitos monstros mitológicos estão lançando discos regularmente, apesar de não terem vasta e exaustiva cobertura da imprensa. São eles: Sonic Youth, Meat Puppets, Pearl Jam, Alice in Chains e Dinosaur Jr. (para citar os que me recordo agora). E essas bandas, ou são símbolos dos anos 90, ou representaram uma parcela considerável no quinhão de influências que o grunge assimilou.

Outros nomes de peso se não lançam discos, ao menos fazem turnês ou fomentam comentários acerca de possíveis retornos, como: Pixies, Jesus and Mary Chain, Faith No More e Pavement. O que me faz pensar também acerca de uma possível volta das camisas de flanelas dentro de um(ns) par(es) de ano(s).

O que convenhamos: não é impossível.

Se o Interpol de Paul Banks, ao lado do Editors, She Wants Revenge, e mais um punhado de bandas conseguiu “reviver” o pós-punk, que é um estilo bem mais limitado comercialmente que o grunge…

- “O QUÊ?”

- “Esse sujeitinho está sugerindo que o grunge tem potencial para ser explorado apenas comercialmente?”

Vamos deixar a ingenuidade de lado um pouco agora. O Grunge não “morreu” com Kurt Cobain. O que morreu foi o potencial comercial que o grunge representava para o mercado fonográfico naquele momento. Um declínio inevitável que sucede um ápice. Pra tudo é assim. Mas nem por isso o Pearl jam deixou de gravar disco de alta qualidade após disco de alta qualidade, ainda que a sonoridade da banda tenha se expandido para além do “grunge”. O Silverchair mandou dois discos pesadíssimos logo de cara.  E eram apenas moleques.  Mark Lannegan mesmo sem o Scraming Trees lançou ótimos discos solos e com suas parcerias, ainda que com uma pegada mais folk. (E eu até arrisco dizer, sob risco de ser apedrejado, que o disco de estréia do Radiohead, “Pablo Honey” foi composto sob influência grunge, com suas 3 guitarras, e vastas paredes de distorção,  o que não é nenhum demérito, PELO CONTRÁRIO,  é um dos meus preferidos dos ingleses) O Queens Of  The Stone Age surgiu depois com o rótulo Stoner Rock, mas que em muitos momentos não se difere em nada do tradicional grunge (vide “feel good hit of the summer” do álbum “R”); o Audioslave, que lançou três discos de ótimo calibre com os vocais de Chris Cornell do Soundgarden, o Velvet Revolver, com a loucura de Scott Weiland do finado Stone Temple Pilots, e  por aí vai.

Ou seja: os grunges sempre estiveram aÍ. Eles nunca pararam de produzir. REPITO :O Grunge não “morreu” com Kurt Cobain. O que morreu foi o potencial comercial que o grunge representava para o mercado fonográfico naquele momento. E ESSE POTENCIAL PODE SER RESSUSCITADO. Porque a moda trabalha com esse movimento de vai e vem, e de reciclagem, e de ressignificação, até que os significados originais estejam completamente diluídos. Ora, o moicano, que sempre foi um horror social não é moda agora? Claro que não é AQUELE moicano, é um moicano aí, que lembra vagamente “O” moicano.  Acho que é o que vai acontecer com a música de Seattle daqui a poucos anos.

Ou seja:

Apesar dos já citados Monstros Mitológicos na ativa (e fazendo trabalhos maravilhosos diga-se de passagem), o que vai se destacar entre a molecada na nova década serão novas bandas grunge, com moleques cuidadosamente produzidos para soarem rebeldes e revoltados com as facilidades da vida moderna e blá blá blá. Aliás, essa seria uma ótima ideia para as gravadoras combaterem o compartilhamento de arquivos (que elas  insistem em taxar como pirataria): bandas que critiquem a internet! Melhor parar de dar ideia antes que um executivo de gravadora leia. E esse new grunge surja…

PS: não citei Melvins, Green River, Mother Love Bone, Mudhoney, entre outros. Eu sei. É que eu quis me ater mais ao “que estourou”, por assim dizer.

orelha

Música é questão de “ouvido”.  E “ouvido” se desenvolve com o tempo  e contato com novas músicas (tanto estilos quanto artistas diferentes). O que acontece é que todos nós ouvimos muita música: na rua, no bar, em casa, no ônibus, no metrô, no trabalho, enfim, estamos sempre ocupando nossa audição,mas existem pessoas que se esquivam e pessoas que abraçam a experiência de se conhecer e descobrir música. Gostaria de colocar aqui a forma como classifico estes que para mim são os dois tipos de ouvintes mais comuns:

1) Ouvinte mais do mesmo:  independente do estilo musical que curte, associa demais sua, digamos, “vivência musical” com as pessoas e situações que vive. Está sempre ouvindo as mesmas músicas, álbuns e artistas de sempre. Faz isso ou porque sempre lhe é empurrado muito do mesmo, e este, como pessoa passiva que é, aceita, sem muito critério ou julgamento; ou porque tem um certo preconceito enraizado em relação a outros estilos e vive muito estagnado dentro de uma caixa, preso em uma bela e estática (como toda) fotografia. Conclusão: PASSIVO e preguiçoso.

2) Ouvinte tudo ao mesmo tempo agora: ainda que associe música a experiências passadas, e momentos vividos, tem uma curiosidade quase sem limites e grande ânsia em conhecer coisas novas, entender porque certos discos são chamados de clássicos, estabelecer relações entre estilos, contextos e influências na música. É o cara que rasga a palavra preconceito jogando-a no lixo e não defende bandeira de estilo nenhum. Define-se apenas como amante da música. Pega um CD (vinil, k7, MP3,  o que quer que seja) e OUVE. Submerge por meia hora e tira suas conclusões. Exatamente: tira suas próprias conclusões. Gostando ou não, verifica se ali existe originalidade, conteúdo, criatividade. Conclusão: ATIVO. Não se arrepende se o que ouviu é ruim. PODERIA ter sido ótimo, como muitas vezes é.

Agora explico o porque de tudo isso fazendo um paralelo com outras formas de artes: Eu não aprendi a ler com Camões nas mãos. Longe disso, li muito Turma da Mônica na verdade. Mas eu cresci, e esse papo de coelhada-SOC-TUM-PAF foi ficando para trás. Então fui conhecendo a Coleção Vaga-Lume, a Agatha Christie, tive a  fase Paulo Coelho (superada a muitos anos, amém), as Graphic Novels Americanas (particularmente curto até hoje), Tolkien,os clássicos da literatura nacional, e alguns da literatura mundial,  e espero continuar assim, conhecendo coisas novas (e, espero, evoluindo meu gosto continuamente). Claro que não abandonei algumas dessas coisas, mas estou preocupado em ter experiências novas, certo?

E este é o paralelo que traço com a música: aos 12 anos de idade eu ouvia muito punk rock. Ah, é legal, é rápido, é agitado: muito Green Day, Offspring, Ramones, e seus milhares de derivados (aliás, apesar de já não achar o “Rocket to Russia” a melhor coisa do mundo, ainda acredito na importância e na contribuição dos jaquetudos para a música), mas aqui o tempo também passou, eu cresci, tomei conhecimento de alguns clássicos do Rock como o II do Led Zeppelin, o disco de estréia do Black Sabbath, e por influência do meu irmão até um Iron Maiden andei ouvindo. Ao fazer aulas de baixo com um especialista em Beatles, passei a entender o impacto cultural que os quatro rapazes de Liverpool representava  para os jovens da Inglaterra (e para a indústria fonográfica) da época e do que veio depois, bem como os grandes que vieram antes dos Beatles, e assim, conforme o tempo passa meu gosto vem se sofisticando: passei a ouvir o Bebop de Dizzy Gillespie e outras sortes de Jazz. Andei experimentando um pouco de Beethoven, mas o que me surpreendeu mesmo foi Gioacchino Rossini. Comecei a ler compulsivamente sobre música. Ao ter aulas de Jornalismo Cultural Brasileiro com enfoque na produção musical nacional do século XX  com Walter Garcia, (e ler Luís Tatit, estudos sobre tensividade passional, Atonalidade na música de Arrigo Barnabé, entre outros), passei a ver a MPB de uma forma completamente diferente: Arrigo Barnabé, o Clube da Esquina e o “Araçá Azul” do Caetano Veloso, e o “Construção” de Chico Buarque ajudaram em muito nessa virada. Passei a ouvir música eletrônica, rap e outras coisas, e notei que na maioria das vezes  é possível separar joio do trigo. O artista, do músico sem qualidades. Em cada estilo.  A grande dificuldade  é tirar os lacres do ouvidos. E não avacalhar algo por não entender/não gostar.

Exemplifico como: dois amigos muito próximos meus são fissurados em Bob Dylan.  Eu, particularmente não gosto muito, não me sinto preparado ainda, assim como não estava preparado aos 14 anos para ouvir Dizzy Gillespie. Um desses meus amigos não curte muito Stones, e outro não é muito chegado no Radiohead. Mas brincamos: “você ainda não está preparado”, é o que dizemos uns para os outros. Um outro amigo é pirado no David Bowie, que ninguém é chegado. Mas seguramente daqui há algum tempo alguém vai dizer: “tem razão, o camaleão é foda.” E assim vamos conhecendo coisas novas e disseminando entre nós: um pouco de música tradicional francesa aqui, outro tanto de música clássica ali, uma banda grunge desconhecida, um cara da MPB que faz de tudo um pouco, e por aí vai. Nem tudo todo mundo abraça, afinal cada tem seu gosto, além de certos critérios bem pessoais,  mas é importante tentar CONHECER antes de julgar, dar um parecer.

Dito tudo isso, acho que fica bem explícito porque disse no início que música é uma questão de ouvido. Me irrita profundamente as pessoas que ouvem meia dúzia de CDs e saem metendo pau ou caçando motivo para meter o pau nas coisas que não gosta, sendo que nunca saíram do gueto de seus gostos limitados. E ainda querem argumentar com conhecimento de causa!

Para finalizar, gostaria de me valer de mais um paralelo: você quer ver muitos filmes em sua vida, com diferentes diretores e estilos, ainda que um ou outro não te agrade (ou até mesmo incomode), ou você prefere ver  e rever aquele seu mesmo filme favorito por toda a eternidade?

bigger bang retorno

Ah, novamente em território seguro. As crônicas são bem intecionadas, porém maçantes. Fui comprar uma régua ao perceber, graças ao joh Stcheraws, que eu não tinha nenhuma. E acabei comprando lápis de cor, borracha, apontador, uma festa. Estou mais infantil que o meu sobrinho de 5 anos.

Viva o anormal amadorismo! Ouvindo “Tuolumne” do Eddie Vedder.

vergonha p b

(O texto abaixo eu escrevi dois anos atrás para um blog que atualmente está morto. Este texto não passou por revisão antes de ser postado aqui)

Entrou o intervalo comercial. Não é como acordar e perceber que tudo era sonho. Não é bem assim. Chega uma hora na vida que você começa a misturar as coisas: O que é hora vaga? trabalho? diversão? Os horários se confundem: Não dizem que nascemos para sermos felizes? Então porque em determinado momento (não menos que abruptamente) passamos a trabalhar mais e nos divertir (muito) menos? É sabido que a cerveja já tomou o lugar do refrigerante em nossas vidas há tempos. Aí chega o momento em que a noite é trocada pelo dia. É bom viver de madrugada, com o rádio ligado e o silêncio da casa. Mas quando amanhece não é hora de dormir. É hora de asfalto, de trilhos. A única janela que se abre na sua vida é a do Windows. Silêncio oco. De repente alguém grita com você. Parece que você fez algo errado. Alguém vai perder dinheiro com isso. O seu erro. Veja a consequência do seu erro. Passa uma menina. Ela te encanta. Depende da idéia que tu faz dela. Há que se considerar que não é só um belo vestido. É malícia. É beleza. É excitação. Mas olha só, às vezes você pega ela distraída e veja só, ora ora; É desorientação. É indecisão. É uma fêmea de louva-deus tentando se defender. A diferença entre ela e a louva-deus é que a louva-deus não precisa se defender. Ela por outro lado, encasquetou que todos vivem olhando ela. E não está errada.Sempre vai ter uma câmera (ou a placa avisando da câmera) a coagir e lembrar de que você vive em uma sociedade altamente vigiada, portanto, nada de fazer gestos idiotas: nada de dançar na rua, nada de mijar no muro, nada de afagos escondidos (se é que me fiz entender). Sabe por quê? Porque do outro lado de um monitor pode haver um vigia rindo a valer de você. Talvez até se masturbando pra você. E haverá uma câmera filmando ele também. Asqueroso? Assim como os celulares em “Os infiltrados”, que são as verdadeiras armas de fogo, os consensos do que é um bom comportamento estão aí para regular os hábitos. 30 segundos. Tempo médio de um comercial. Um job publicitário altamente elaborado para o agrado de todos. E a TV te devolve aquilo que você não tem.

     fim de tarde Estava aqui pensando sobre uma velha árvore que tinha em frente à minha casa quando eu era pequeno. Para ser mais preciso era ao lado de casa, quase na esquina, porque na verdade tem um poste na frente de minha casa, mas enfim… Essa árvore meio que simboliza na minha memória a infância (e também o fim dela).

     Falando assim, eu pareço um velho, um saudosista. Não me importo: não estou na corrida pela eterna juventude (mas que renega a infância) que muitas pessoas estão.  Como o príncipio da Gestault, acredito que é necessário observar bem e fechar certas janelas antes de abrir outras.

 

Clique aqui e baixe a crônica amadora#2

tubulacao_closeup

Agora não adianta mais tentar voltar atrás; o menino decidiu virar escritor e não tem quem tire isso da cabeça dele. Eu bem que falei pra mãe olhar mais de perto, que esses recolhimentos para o quarto com um livro debaixo do braço não eram normais para uma criança. Que isso ia acabar tornando o moleque num maldito dum revolucionário, ou numa porra de um subversivo ateu, mas ninguém me deu ouvidos. Já não é de hoje que esse negócio de aprender a pensar por si só dá em merda. Pega o exemplo daquele velhinho da língua de fora, o tal do Einstein, pensou tanto que acabou pensando que era um cachorro, até tiraram uma foto dele com o tapete bucal de fora. É sério. Eu vi. Mas o que a gente pode fazer? O pai do menino decidiu ir lá pra Nova Iorque, porque achou que já era hora de abandonar o berço esplêndido. Nem preciso dizer que não voltou mais, acabou se perdendo por lá, e agora o corpo ficou totalmente inerte, porque talvez vocês não saibam, mas a viagem pra Nova Iorque não tem volta. No começo o menino ficou a ver navios, mas aí ele se cansou de tanta água, saiu da janela e se retirou para o quarto, que lá ele tinha mais silêncio para esperar a passagem dos dias e catalogar as variações de seus sintomas de rinite alérgica. E para catalogar você precisa de paciência e conhecimento, senão você se engana. Pega a televisão por exemplo, ela te engana de uma forma tão eficaz que você sabe que ela está te enganando e mesmo assim continua dando bola pra ela. A mãe do menino mesmo, criou um altar e uma forma toda especial de rezar para a televisão. Armou um lugar central na estante da sala para o aparelho e reza diariamente em frente a ele. Sentada no sofá, e de olhos abertos é claro. Dizem por aí que a TV ajudou as mulheres a se libertarem da opressão machista . No caso do moleque, a tv ajudou a afastar dele a outra metade da família que lhe sobrou. Eu falei pra mãe dele, mas era um tal de Toni Ramos pra cá, Tarcísio Meira pra lá, Roberto Carlos não sei onde, que ela nem notou o moleque crescendo escondido e melancólico, povoado de idéias subterranêas, completamente inacessíveis, pontuadas por um sorriso bobo quando via cores argênteas na sacada da casa ao lado. Ninguém sabe ao certo o que se passa em sua cabeça porque ele passou a catalogar sensações também, e as esconde como um cientista antes de patentear suas idéias, mas o que a gente pode fazer? Sem o apoio dos pais não se faz um bom rapaz. Ai, ai, no que esse menino vai dar? Pelo menos não é músico.

samba1

Pronto, decidi o que fazer. Vou fazer crônicas (não chame de poesia, não sou poeta), e como devem ser as crônicas, falarei sobre fatos cotidianos, momentos nostálgicos, velhas aspirações, coisas perdidas no tempo…

Aqui não há pretensão. Só o ideal anormal-amador do “faça você mesmo”.  Errando e (nem sempre) aprendendo. As Crônicas Amadoras serão gravadas com um celular no formato amr, que rola legal no Real Player, e disponibilizadas para download, sempre no ZShare. Como no link abaixo:

Clique aqui e baixe a Crônica Amadora #1

 

Crônica dedicada à amiga Gi.

 

 


Amadorismos

Twitter do Anormal