Um blog de alguém que se mete a fazer coisas que não sabe.

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ESPIRITUAL GUERRILHA OFFLINE (parte 1)

Eu precisei esvaziar as garrafas para ter do que sentir falta. Voltei meus olhos para as migalhas de comida espalhadas pelo balcão da cozinha, e não fossem os restos, fragmentos inúteis do que ficou, sinceramente nem me lembraria de tudo que havia se passado. Peguei algumas poucas mudas de roupa, coloquei em uma sacola de supermercado – dessas ecologicamente corretas que tanto utilizamos agora – e parti para a casa dela.
No caminho refleti sobre o impacto da primeira vez. A primeira vez sempre é dolorida. Existe a vergonha, o medo do desconhecido, e também a excitação pelo novo, é claro, mas principalmente o medo do desconhecido. Depois da primeira vez, o impacto passa batido como tudo com o que já não nos importamos tanto. Chegando à casa dela, sou recebido com uma indagação no mínimo estranha:

- Você lavou bem as mãos ao sair de casa?

-  Acho que sim. Por quê?

- Não quero que você toque em minha argila com as mãos sujas. A minha argila é sagrada, e quero mantê-la longe das impurezas – não tenho certeza se captei completamente o sentido da mensagem que ela quis me passar, mas pela seriedade que ela transmitiu no olhar decidi não fazer nenhum tipo de questionamento direto. Ainda assim, não me contenho e solto o que há de mais óbvio circundando minha cabeça:

- Pensei que íamos fazer sexo.

- Faremos algo muito melhor do que sexo. Acessaremos nossas ancestralidades através da atividade produtiva com argila. Quando terminarmos, teremos nos tocado e conhecido mais profundamente do que se tivéssemos ido para a cama juntos.

Então ela me guiou por um corredor bem iluminado, com plantas pendendo de vasos das paredes, em direção a um quarto escuro. Senti medo e excitação. Infinitamente mais do que se estivéssemos caminhando para mais um foda gostosa e banal, havia lascívia naquele mistério todo, e por esse mesmo motivo me senti diferente; desnudo, moleque de tudo. Analfabeto.

Entramos no quarto. Ela me indicou o chão em frente ao monte de barro, que se encontrava centralizado, como um monte, apontado para cima:

- Senta.

Sem ver outra alternativa, me sentei. Ela abaixou-se, e sentou-se à minha frente, tendo o monte de barro entre nós. Pegou minhas mãos, colocou sobre o monte de barro, pôs o mecanismo rústico que dava suporte à argila para girar, e em seguida colocou suas mãos sobre as minhas. Foi nesse momento que senti.

Olhei bem fundo em seus olhos castanhos. Ela, segura de si, como só quem conhece os meandros do que faz é, me retribuiu o olhar como quem encontra uma nascente onde falta água. Senti vórtices de sensações: a argila fria em meus dedos me fez lembrar de jogos de criança; dos banhos de chuva e lama como algo novo, único e excitante; da descoberta de um alçapão sobre o último reservado do banheiro da escola primária, que dava acesso a uma sala escura de maquinários antigos, em que mistérios residiam calados pelo tempo; do calor do primeiro beijo escondido, e do prazer do contato com a primeira vagina. Sensações transcendentais movidas pelo ineditismo. Nascemos para descobrir, desbravar, nos surpreender.

- Agora sente a argila. Ela é uma pele. Ela é carne, vida, corpo.

Me concentrei ali, tentando pôr de lado minhas sensações, e o que houve foi o surgimento de uma pulsação em minhas mãos: eu sentia a argila, e sentia já não somente a mão dela na minha, mas todo o seu corpo: o calor de seu útero, o conforto de seu colo, a maciez de seus pés. Seu corpo nu, cru, que cheira a amor, café novo recém-torrado, moído e passado: sua pele negra, seu espírito livre, e então me senti mais homem também: completo, masculino, não discordante; embriagado pela alegria e paz de espírito. Entre lágrimas de felicidade pouco pude dizer:

- Me leva pra onde você quiser. – mas ela retrucou:

- Quem decide é você. O impulso é seu.

- Vamos para a gruta. Andar entre estalactites mais velhas que a humanidade. Adentrar a mais profunda escuridão. Mergulhar nas águas gélidas. E gozar infinitamente, fundindo nossos corpos, envoltos pelas lágrimas de Deus.

Com a argila nos unindo feito cola, ouvi o pesado movimento do ponteiro do relógio que é o meu corpo sobre o dela, marcando a rotação fatal: a aceitação divina de seu abraço, que não retorna, que não questiona.

      Lindolfo R. Nascimento

      São Paulo, 28/12/2011

Felicidade Objetiva

Na pia.

Junto aos peixes que esperam o preparo

Com os brinquedos espalhados pelo carpete

Não há indivualismo que suplante

Tamanha e escancarada felicidade objetiva.

Rápido diálogo sobre o amor

-  O fato é que já não dava mais.

– Não dava mais, ou você não queria que desse?

– Que diferença faz? Quando a gente pensa em foder, a gente pensa em amar, só não admite pra si mesmo. E por mais curta que seja a foda, ali está o amor: Amor de elevador. Amor de banco de trás do carro. Amor de cinco minutos em banheiro de balada. Todo sexo é amor, e se você não quer mais sexo com alguém, você já não ama essa pessoa.

– Não é o conceito mais difundido de amor que já ouvi, mas acho válido seu raciocínio. Inicialmente aceito apenas para fugir da lógica unâmime, e nos salvar pela ótica de Nelson Rodrigues. Mas, e os amores eternos? E os amores à primeira vista?

– Tão conscientes e improváveis quanto a fé. Existirão enquanto houver quem acredite neles. E benditos sejam esses crentes, pois cumprem toda uma quota que libera o restante da humanidade dessas utopias.

– E as pessoas que amam à distância? Estão privadas do amor simplesmente por não terem a possibilidade do prazer carnal?

-Vamos pensar em pessoas separadas pela distância então. Eu jamais diria que estas estão impossibilitadas de amar, mas sim de amar em sua plenitude enquanto existir distância. A distância é um fetiche dos mais poderosos. Tal qual é o azeite a encher um vaso para os cristãos, é a distância a encher o amor de tesão para um sofredor. O amante à distância é antes de mais nada um idealista, que se consome, que se reconstrói. Que arde em si. Os gritos silenciados em sua alma são gritos sufocados de alcovas, do mais proibido prazer, do mais ultrajante e sincero desacato, mas que só pode dar vazão a tudo isso quando reencontra seu par. Já tu, o que pensas?

– Não entendo minha natureza. Por isso deixo que me digas.


Perturbação e ócio

“Eu quero transar com você num banheiro de paraplégico” diz a canção do Kassin. Tempos loucos.

“Vamo” lá:

Descobri um joguinho interessante. A proposta do site: Aqui você joga Tetris da perspectiva da peça, ou seja: quando você rotaciona ela, a tela gira. Divertido.

http://www.firstpersontetris.com/

Que o Kassin é um músico e produtor foda todos sabemos, mas que ele faz canções engraçadas, eu não sabia. “Calça de ginástica” é sobre essa tara que muitas pessoas tenho. A canção é no estilo Sinth pop alegre e os músicos são os melhores possíveis (Donatinho no teclado, fazendo um solo de guitarra!,  a lenda Alberto Continentino no baixo, o velho comparsa Domenico na batera, e Kassin no vocal e guitarra, fantástico). A canção foi tocada em uma apresentação que  aconteceu na UFRGS, em Porto Alegre, no dia 05 de novembro do ano passado.

E pra terminar este post de extrema utilidade pública, vos apresento o melhor/mais genial/mais interativo site da web.

Sabe quando alguém pergunta: “é pavê ou é pa comê?” Este aqui é pavê, mas é pudim.

http://www.pudim.com.br/

Quas, quas, quas, quas, quas, quas. Faz caringundumFaz caringundumFaz caringundum!

Revolver: a revolução posta em prática

Por que o Revolver é considerado por muitos o melhor álbum dos Beatles em detrimento dos geniais Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band e Abbey Road? Existem muitas razões possíveis, e não estou tomando partido, mas acredito poder indicar algumas delas:

Se  Rubber Soul (1965) dava indícios de que os rapazes de Liverpool estavam se desenvolvendo mais e mais musicalmente, e evidenciando que estavam atingindo o máximo que o yeah yeah yeah podia oferecer, em Revolver, eles não só se afastavam definitivamente da atitude playmobil, como já apontavam múltiplas direções do que o rock, e a música popular como um todo podia vir a ser: uma mescla de lugares, tempos e culturas diferentes, tornando este momento, o ano de 1966, o ápice da miscigenação da música popular mundial até então.

Música erudita e temática não-adolescente

Em “Eleanor Rigby” Paul McCartney cria uma pequena obra de arte com fortes traços da música erudita – arranjos de cordas dão o tom da música –  e letra de temática mais adulta que as desenvolvidas até então. Para notar o contraste, basta colocar esta letra sobre uma mulher que vive e morre solitariamente lado a lado com sucessos dos discos anteriores, como “drive my car” do já citado Rubber Soul.

Busca Espiritual

Os outros Beatles afirmaram que a viagem à India foi parcialmente proveitosa, pois em determinado momento se encheram e decidiram voltar para a Inglaterra. George Harisson decidiu ficar mais por lá acompanhando o guru, e quando se reuniu com os demais, incluiu três músicas suas no álbum (feito inédito até então): “Love you to” cheia de tablas e cítaras, “I want to tell you” marcado por uma letra sobre suas preocupações com a dificuldade em se expressar num momento em que se considerava no auge da própria criatividade, e “Taxman”.

Sobre problemas reais, não só amor

“Taxman”, a terceira colaboração de Harrison (e na minha opinião a mais rock do disco) trata de impostos*! Harrison reclama das altas tarifações que o governo inglês impunha a quem tinha grandes rendimentos, dando nomes ao bois; fala sobre o Primeiro Ministro Inglês do Partido Trabalhista e do Líder da oposição. “Mr. Wilson” e “Mr. Heath” na letra. Além disso, o disco trata também de  temáticas como morte e  solidão citados acima em “Eleanor Rigby”. Tudo muito além do estar-sem-namorada.

Drogas  e Psicodelismo

Aqui começa-se a notar as referências e influências das drogas que seriam escancaradas em Sgt Peppers: “And your bird can sing” teve seu solo gravado e reproduzido ao contrário por Harrison. Ringo canta a alegre e cheia de efeitos “Yellow Submarine”, composta por Paul para ser um tema infantil dos Beatles, o que de fato ocorreu com a produção do filme-desenho de mesmo nome em seguida. Já  John Lennon,  inspirado por uma de suas experiências com LSD  diz:  ”eu sei o que é estar morto”  em “She Said She Said”. Mas outras canções do disco também resvalam no tema das drogas, como “Doctor Robert” (anfetaminas) e “Got To Get You Into My Life” (maconha).

Um novo tipo de canção que toca o coração

Em “I’m only sleeping” Lennon começa a fazer o que para mim viria a ser o melhor de sua obra: o retrato de coisas cotidianas. Lennon eleva a preguiça e a sonolência ao estado de arte. Melhor que isso, só  ”A day in the life”**. E Paul novamente mostra suas garras criativas em “For no one”, que é… Algo que vai além de qualquer comentário que um reles mortal como eu possa fazer.

Resumindo:

Além de ser inovador  estética e musicalmente como toda a obra da banda, Revolver ainda sai na frentes dos discos anteriores por ser provavelmente o primeiro passo realmente firme que os Beatles deram na revolução musical que hoje proporciona a você, Brasileiro, ver este Japinha, tocando a música de um artista norte-americano. Ah, admito que a outra revolução, a internet, também ajudou bastante, mas esta veio muito, muuuuuito depois dos 4 rapazes de Liverpool.

*Este, aliás, é um problema que não foi exclusivo dos Beatles; os Stones em 1972, época do não menos clássico Exile on main St., tiveram de criar uma manobra para enganar o governo inglês: foram morar na França durante a composição e gravação do disco. Assim sobrava mais grana pro Keith Richards queimar na heroína.

**mas aí já é outro disco.

Meio alheio (começando 2010)

Hebe Camargo no hospital.  Avatar e sua espetacular bilheteria (Supera o Titanic! Supera o Titanic! Supera!). Pontos de alagamento por todo o país.  Início do Big Brother (não o do George Orwell; o da Globo, e não se sabe qual é  pior para a humanidade). Enfim, vários fatos. Mas qual é “O” fato?

O fato é que não posso mais me esquivar de escrever este blog.  O negócio é ou escrever ou declarar falência logo e baixar as portas. Mas somos brasileiros, e enquanto houver fevereiro, a gente se arrasta, certo?

(A pergunta foi retórica)

“Vamo”  lá:

Family – Think About Life

Wow. A melhor música de 2009 que eu só fui ouvir em 2010. O nome da pérola é “Johanna” e é da banda Think About Life, e me fez dar uma revirada na internet para achar o álbum deles, o Family. tanto que só agora consegui achar e baixar. Mas confesso que estou receoso em ouvir: tanta qualidade em uma única faixa tem um preço. Estou com medo de o resto do álbum ser desprezível, a exemplo de  Julian Casablancas, que me lança uma 11th dimension dentro de um Phrazes for the young. Decepcionante.

Transference – Spoon

Vazou. Simples. Rápido e sem fazer alarde.  Ouvi e posso assegurar que o  Ga Ga Ga Ga Ga ainda reina soberano no meu iTunes. Ainda assim, Transference é um bom disco. Em especial a “I Saw The Light”. Quer baixar? Vai no Stcheraws. Mas já que eu falei do outro disco, abaixo uma amostra dele, que é sem dúvida o  melhor que a banda já produziu.

Romance is Boring –  Los Campesinos

O título do trabalho é foda e a capa é muito boa, mas tenho que admitir (graças ao Iberê Borges que chamou atenção para o fato)  que a grande surpresa é a música  ”Straight in at 101″,  que lembra absurdamente Dance of Days.

Run Devil! Run!

Covers e covers

Eu confesso que sou bem chegado numa versão diferente/inusitada de alguma canção conhecida e também num bom cover. Pois bem, vamos ao que aconteceu nos últimos dias nas apresentações de algumas bandas no mundo:

O Pearl Jam entrou no espírito do Halloween no show do dia 31 de Outubro e se travestiu na lendária banda DEVO, com direito a performances estilo robô e Eddie Vedder de óculos “fundo de garrafa” durante a cover de “Whip it”

O Monsters Of Folk me surpreendeu totalmente com a cover deles no Halloween, ao ouvir o CD de estréia  - homônimo – do coletivo de músicos da cena indie, não me passou nem de perto a ideia de que esta mesma banda seria capaz de se fantasiar de KISS e mandar uma cover de “Detroit Rock City”. Uau.

Já o Weezer, com seu recém-lançado Raditude três dias antes em NY , e a atitude mais gozadora do mundo, que aliás, é o comportamento da banda já a algum tempo, não se fantasia como os homenageados, mas mandam uma cover muito boa da polêmica “Viva La Vida” do Coldplay. O detalhe interessante é que Rivers Cuomo não se deu nem ao trabalho de “decorar” a letra, e canta olhando no papel. No início tem um jeitão de karaokê. A minha dúvida no fim das contas é: É homenagem ou é gozação?

Fonte: entre outros blogs, vi no Dominódromo.

(DES)ENTERRANDO SUA ALMA

Oasis p e b

Ainda não estou totalmente convencido sobre este fim do Oasis. Sei lá, o Oasis é uma banda com um vasto histórico de desavenças (entre os Gallagher, com outros integrantes, e com a imprensa). E já foi noticiado um fim antes. Sim, deve-se levar em consideração o fato de que eles estão na ativa já a bastante tempo, e que certos desgastes são mais do que comuns. Mas me recordo que há poucos meses, os Gallagher haviam anunciado que a banda não lançaria nada pelos próximos cinco anos.

Aí é que está. Eu acredito nesta pausa, mas não no fim. O maior problema do Oasis foi não ter dado “um tempo”, ou mesmo “acabado” no auge. Ao lançarem o disco de grande potencial, mas de efetivo constrangimento Standing On The Shoulders Of Giants (2000), sem sequer estarem com uma formação completa, muito do que poderia ser a continuidade brilhante da discografia da banda, foi para a sarjeta. E para recuperar, são longos e longos anos, com tentativas nem sempre totalmente bem sucedidas. Uma prova de que o “Standing” poderia ser algumas vezes melhor do que foi, é o registro ao vivo Familiar To Millions, lançado na sequência e  com formação já definida e estabilizada. Ali, canções como “Go let it out”,  ”Gas Panic” e “Who Feels Love?” mostram o verdadeiro potencial desperdiçado em estúdio. Excluo “Fuckin’ in The Bushes” da crítica, pois já no álbum original ela se mostra magnífica (a única talvez).

Os discos que vieram na sequência vinham conseguindo recuperar um pouco da qualidade deixada nos anos 90; Heathen Chemistry (2002) demonstrou uma sincera vocação para hits radiofônicos, com “Stop Crying in Your Heart Out”, “Little by Little” e “Songbird”, mas o restante do álbum não demonstrava a mesma expressão. E pouco a pouco a moral da banda com a crítica foi melhorando: com Don’t Believe The Truth (2005) lembro de ter lido resenhas bastante entusiasmadas com o álbum como um todo; a expressão “o melhor desde Be Here Now (1997)” era lugar comum à época. Dig Out Your Soul, do ano passado me surpreendeu com a qualidade do primeiro single, “The Shock of the Lightning”, mas é, mais uma vez, um trabalho irregular, com muitas ótimas canções e algumas fracas.

Outro aspecto importante de se notar são as apresentações da banda: o Oasis desde sempre foi uma banda com performance zero, que se segurava em palco graças à qualidade das canções e às execuções amparadas pela capacidade técnica de seus músicos.  A capacidade dos músicos certamente não piorou, mas com a transformação do repertório da banda, muita coisa se perdeu em comparação com as turnês do fim dos anos 90.

As expectativas dos irmãos Gallagher de voltar ao topo do mundo foram se provando cada vez mais infundadas, e isso certamente gerou desgastes, até mesmo pelo tempo de exposição da banda. Nenhum grupo passa impune a tantos anos sem interrupções no trabalho ou mudanças na forma de se fazer esse trabalho . A minha conclusão é de que o Oasis volta. Não importa se daqui a 5 ou 10 anos, porque o Oasis é uma espécie de banda em extinção. Dinossauros com guitarras que para o bem ou para o mal, não se atualizam e continuam a gravar disco após disco, sem se importar com as mudanças do mundo.

RELAÇÕES COM O RADIOHEAD (Pt 1)

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Minha relação com o Radiohead começou no início de 2001. Na época eu havia lido uma crítica do disco KID A na edição de alguns meses antes de uma determinada revista masculina, e fiquei encabulado com a expressão “rock espacial”. E  as impressões do jornalista de que parecia que o Radiohead havia viajado para Marte para compor o disco e etc, etc, etc só serviam para me deixar ainda mais encabulado. Sim, pois eu já conhecia “Creep”, “Fake Plastic Trees” e “No surprises” da MTV, mas os tempos eram outros, e eu, um moleque de 14 anos sem mesada e sem as facilidades da internet, não tinha como correr atrás de um disco daquela banda do vocalista feio para ouvir inteiro e tentar entender se o que o crítico escreveu fazia sentido ou não.  Foi então, que um certo dia fui dormir na casa de minha tia, e ao acordar e ligar a TV em um canal a cabo, me deparo com a exibição do show da tal banda. E eu não conseguia acreditar no que via: um som completamente diferente de tudo que eu já havia ouvido: climático, denso, indecifrável, e muito, mas muito original. Vi aquele vocalista franzino com cara de louco em transe no palco dançando atrelado a um instrumento estranho que mais parecia uma caixa, e fiquei maluco imaginando o ponto de interrogação dos críticos ao tentar descrever aquilo. Simplesmente não dava. Daí as loucuras espaciais. Dessa manhã, fiquei com três palavras na cabeça: “Idioteque”,  ”Optimistic” e a senha para elas: KID A.

Cheguei em casa maluco e comecei a falar sem parar para um amigo meu, que havia me revelado pouco tempo antes que gostava de uma música de um comercial de crianças com síndrome de down, mas que não sabia de quem era a canção. Eu havia matado a charada e emprestado para ele uma fita com a tal música, que eu tinha gravado direto do rádio, entre várias outras coisas . Ali eu comecei a infernizar ele que precisava porque precisava ouvir esse tal de KID A. Ele como já trabalhava, decidiu me dar o tal CD de aniversário. Não deu outra: no dia 18 de fevereiro eu ouvia o tal disco pela primeira vez. Foi a tesoura que cortou os lacres dos meu ouvidos.

Algumas pessoas não gostaram. Outras idolatraram. Tempos depois, uma amiga me disse que eu estava tentando me convencer que o disco era bom só porque o Radiohead já havia lançado discos maravilhosos como o The Bends e o Ok Computer. Eu me revoltei:  ”Como? se o Kid foi o primeiro que eu ouvi?”

Porque sim, eu tinha vontade de ouvir a “trilogia clássica” do Radiohead, mas sem o empurrão do Kid A ladeira abaixo, nada teria acontecido.  Foi quando esse meu amigo que me deu o KID A decidiu se abastecer de Radiohead também, e comprou o OK COMPUTER e o THE BENDS. Aí era um tal de vai-e-vem desses CDs que as bolachinhas ficaram até gastas. Depois vieram, o AMNESIAC  e o registro ao vivo I MIGHT BE WRONG, e já não tinha mais volta. Essa minha amiga no meu aniversário seguinte me presenteou com o PABLO HONEY, atestando o estado crônico da minha doença. Passam-se mais alguns anos e um outro amigo me presenteou com o HAIL TO THE THIEF em meu aniversário. Uau, só agora me dei conta de que ganhei 3 CDs do Radiohead em 3 aniversários diferentes, e de 3 amigos diferentes. Uau. Obrigado, vocês moram no meu coração por isso.

Depois veio a saga para conseguir comprar o COM LAG (importado japonês de lados B do Hail To The Thief) de um camelô do centro a preço de CD nacional, bem como a aquisição do IN RAINBOWS importado usado para descobrir poucas semanas depois que o tal CD havia saído em edição nacional. No fim acabou saindo o mesmo preço, porque como o importado estava usado, o vendedor da Galeria do Rock deu um desconto à base de choro.

9

Mas pra que toda essa história?

Porque recentemente eu fiquei emocionado com a descoberta do lançamento das edições DELUXE dos 6 primeiros discos de estúdio da banda (sim, os que foram lançados pela EMI/Parlophone). Todos contendo o CD original, um CD de lados B, e um DVD com extras. O preço é escrotamente alto, mas graças às facilidades da internet, consegui baixar todos sem maiores dificuldades. E confesso que me emocionei com uma nova decoberta de uma banda que eu me julgava já tão conhecedor. Os CDs Bônus (os de número2) nos brindam com lados B de singles já conhecidos pelos aficcionados da primeira fase da banda, como “Banana Co”, “Palo Alto”, “Talk Show Host”, “Maquiladora” e “Pop is Dead”; com jóias desconhecidas como as maravilhosas “The Amazing sounds of Orgy” e “Polyethylene (parts 1 & 2)”; com versões diferentes de músicas já bem conhecidas dos fãs, como uma versão dub para “Climbing up the Walls”,  e a versão US para “Stop Whispering”. Além de versões ao vivo, participações em programas da BBC,  remixes e versões acústicas.  Apesar de ser uma jogada ressentida da gravadora (que perdeu a mina de ouro de Oxford), esses lançamentos são de um valor inestimável para os fãs, e acaba fazendo ainda que contra a vontade, com que TODOS os discos oficiais da banda já lançados até agora sejam duplos. Afinal, mesmo independentes e antes dessa série Deluxe, eles já haviam lançado o In Rainbows em versão dupla. Que aliás, que CD2 primoroso, diga-se de passagem: “Go Slowly deveria entrar para qualquer lista de mais belas canções tristes desse mundo (ou de qualquer outro mundo, já que o Radiohead é espacial para alguns).

Abaixo um breve resumo do que o espera em cada CD Bônus:

PABLO HONEY: 22 faixas. Versões demo, live, acústicas, apresentações no Evening Sessions da rádio BBC, lados B e inéditas.

THE BENDS: 21 faixas. Composto principalmente de lados B e inéditas, mas com algumas versões acústicas, “Maquiladora” na BBC e takes diferentes de “Street Spirit (fade out) e “Bones”. Muitas faixas que ficaram de fora do álbum lançado à época.

OK COMPUTER: 15 faixas.  Praticamente metade é de inéditas, mas há também versões ao vivo e na BBC, além de remixes. Destaque para as já citadas  ”Climbing Up The Walls (Fila Bazilia Remix)” e “Polyethylene (parts 1 & 2)”.

KID A: 13 faixas.  Sem canções inéditas, é inteiramente constituído de versões ao vivo,  ao vivo em estúdio e participações em programas de rádio.

AMNESIAC: 15 faixas. Mezzo canções inéditas, mezzo versões Ao vivo. Com “Life in a Glass house (Full Lenght Version)” dividindo o bolo.

HAIL TO THE THIEF: 13 faixas. Aqui a gravadora pegou o COM LAG que era um cd de lados B e versões do Hail To Thief lançado originalmente de forma exclusiva para o mercado japonês, e o incorporou ao pacote como CD Bônus. Deve ter sido o mais simples de compilar, pois já estava compilado: Remixes (“Remyxomatosis”  e “Skttrbrain”), first demo (“There there” 7 minutos, e beem diferente da  versão final que conhecemos, mas que dá uma ideia de como nasce uma ótima canção), ao vivo ( “2+2=5″), canções inéditas (“Paperbag Writter”, entre outras),  registro ao vivo acústico de música inédita (“Fog”) e até instrumental (“I am Citizen Insane”).

Posso dizer sem medo de me arrepender que 2009 foi um ano ótimo para mim musicalmente falando: vi esses caras ao vivo após anos de espera, e foram lançados esses CD’s que revelaram pra mim dezenas de canções maravilhosas, além de congregar algumas outras que eu tinha ouvido apenas de forma furtiva.  Não é que esses executivos oportunistas de gravadora, ao contrário da Courtney Love, às vezes fazem algo legal?   De volta para 2001…

PS: Não colocarei os discos para download porque esta não é a proposta do blog,  mas com uma simples busca no google contendo as tags, “radiohead”, “deluxe”, “download” e “blog”, é possível encontrá-los. E vale a pena. Como vale.

BACK TO THE GRUNGE

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Pois é né, existe aquela teoria de que a música pop sempre volta 20 anos para o passado:  Nesta década que já se finda, as principais novidades musicais como o Strokes,  o Interpol, o CSS, entre outros, se inspiraram em algumas das vertentes musicais do som dos anos 80. O que de fato aconteceu: em qualquer balada indie o que mais se ouviu e se ouve é, ou as novidades de inspiração retrô, ou os próprios fantasmas dos 80 como Cindy Lauper, Smiths, Cure e Billy Idol (só para citar alguns). As roupas então, nem falo nada, mas aquele lance da Madonna de dançar com roupa de ginástica na divulgação do Confessions on a dance floor já diz muita coisa (teve até quem SE revisitou).

E  durante os próprios anos 80, muito do que foi  respirado, como alguns discos do R.E.M.,  tinha clara influência do Powerpop dos anos 60. Bem como nos 90 o grunge do Alice Chains carregava uma certa aura pesada do Metal setentista. Ou mesmo as canções de Kurt Cobain, com sua agressividade punk.

Uma coisa que um jornalista da Rolling Stone (não lembro qual) escreveu, e que até então não tinha me dado conta, é o fato de que muitos monstros mitológicos estão lançando discos regularmente, apesar de não terem vasta e exaustiva cobertura da imprensa. São eles: Sonic Youth, Meat Puppets, Pearl Jam, Alice in Chains e Dinosaur Jr. (para citar os que me recordo agora). E essas bandas, ou são símbolos dos anos 90, ou representaram uma parcela considerável no quinhão de influências que o grunge assimilou.

Outros nomes de peso se não lançam discos, ao menos fazem turnês ou fomentam comentários acerca de possíveis retornos, como: Pixies, Jesus and Mary Chain, Faith No More e Pavement. O que me faz pensar também acerca de uma possível volta das camisas de flanelas dentro de um(ns) par(es) de ano(s).

O que convenhamos: não é impossível.

Se o Interpol de Paul Banks, ao lado do Editors, She Wants Revenge, e mais um punhado de bandas conseguiu “reviver” o pós-punk, que é um estilo bem mais limitado comercialmente que o grunge…

- “O QUÊ?”

- “Esse sujeitinho está sugerindo que o grunge tem potencial para ser explorado apenas comercialmente?”

Vamos deixar a ingenuidade de lado um pouco agora. O Grunge não “morreu” com Kurt Cobain. O que morreu foi o potencial comercial que o grunge representava para o mercado fonográfico naquele momento. Um declínio inevitável que sucede um ápice. Pra tudo é assim. Mas nem por isso o Pearl jam deixou de gravar disco de alta qualidade após disco de alta qualidade, ainda que a sonoridade da banda tenha se expandido para além do “grunge”. O Silverchair mandou dois discos pesadíssimos logo de cara.  E eram apenas moleques.  Mark Lannegan mesmo sem o Scraming Trees lançou ótimos discos solos e com suas parcerias, ainda que com uma pegada mais folk. (E eu até arrisco dizer, sob risco de ser apedrejado, que o disco de estréia do Radiohead, “Pablo Honey” foi composto sob influência grunge, com suas 3 guitarras, e vastas paredes de distorção,  o que não é nenhum demérito, PELO CONTRÁRIO,  é um dos meus preferidos dos ingleses) O Queens Of  The Stone Age surgiu depois com o rótulo Stoner Rock, mas que em muitos momentos não se difere em nada do tradicional grunge (vide “feel good hit of the summer” do álbum “R”); o Audioslave, que lançou três discos de ótimo calibre com os vocais de Chris Cornell do Soundgarden, o Velvet Revolver, com a loucura de Scott Weiland do finado Stone Temple Pilots, e  por aí vai.

Ou seja: os grunges sempre estiveram aÍ. Eles nunca pararam de produzir. REPITO :O Grunge não “morreu” com Kurt Cobain. O que morreu foi o potencial comercial que o grunge representava para o mercado fonográfico naquele momento. E ESSE POTENCIAL PODE SER RESSUSCITADO. Porque a moda trabalha com esse movimento de vai e vem, e de reciclagem, e de ressignificação, até que os significados originais estejam completamente diluídos. Ora, o moicano, que sempre foi um horror social não é moda agora? Claro que não é AQUELE moicano, é um moicano aí, que lembra vagamente “O” moicano.  Acho que é o que vai acontecer com a música de Seattle daqui a poucos anos.

Ou seja:

Apesar dos já citados Monstros Mitológicos na ativa (e fazendo trabalhos maravilhosos diga-se de passagem), o que vai se destacar entre a molecada na nova década serão novas bandas grunge, com moleques cuidadosamente produzidos para soarem rebeldes e revoltados com as facilidades da vida moderna e blá blá blá. Aliás, essa seria uma ótima ideia para as gravadoras combaterem o compartilhamento de arquivos (que elas  insistem em taxar como pirataria): bandas que critiquem a internet! Melhor parar de dar ideia antes que um executivo de gravadora leia. E esse new grunge surja…

PS: não citei Melvins, Green River, Mother Love Bone, Mudhoney, entre outros. Eu sei. É que eu quis me ater mais ao “que estourou”, por assim dizer.

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