Eu precisei esvaziar as garrafas para ter do que sentir falta. Voltei meus olhos para as migalhas de comida espalhadas pelo balcão da cozinha, e não fossem os restos, fragmentos inúteis do que ficou, sinceramente nem me lembraria de tudo que havia se passado. Peguei algumas poucas mudas de roupa, coloquei em uma sacola de supermercado – dessas ecologicamente corretas que tanto utilizamos agora – e parti para a casa dela.
No caminho refleti sobre o impacto da primeira vez. A primeira vez sempre é dolorida. Existe a vergonha, o medo do desconhecido, e também a excitação pelo novo, é claro, mas principalmente o medo do desconhecido. Depois da primeira vez, o impacto passa batido como tudo com o que já não nos importamos tanto. Chegando à casa dela, sou recebido com uma indagação no mínimo estranha:
- Você lavou bem as mãos ao sair de casa?
- Acho que sim. Por quê?
- Não quero que você toque em minha argila com as mãos sujas. A minha argila é sagrada, e quero mantê-la longe das impurezas – não tenho certeza se captei completamente o sentido da mensagem que ela quis me passar, mas pela seriedade que ela transmitiu no olhar decidi não fazer nenhum tipo de questionamento direto. Ainda assim, não me contenho e solto o que há de mais óbvio circundando minha cabeça:
- Pensei que íamos fazer sexo.
- Faremos algo muito melhor do que sexo. Acessaremos nossas ancestralidades através da atividade produtiva com argila. Quando terminarmos, teremos nos tocado e conhecido mais profundamente do que se tivéssemos ido para a cama juntos.
Então ela me guiou por um corredor bem iluminado, com plantas pendendo de vasos das paredes, em direção a um quarto escuro. Senti medo e excitação. Infinitamente mais do que se estivéssemos caminhando para mais um foda gostosa e banal, havia lascívia naquele mistério todo, e por esse mesmo motivo me senti diferente; desnudo, moleque de tudo. Analfabeto.
Entramos no quarto. Ela me indicou o chão em frente ao monte de barro, que se encontrava centralizado, como um monte, apontado para cima:
- Senta.
Sem ver outra alternativa, me sentei. Ela abaixou-se, e sentou-se à minha frente, tendo o monte de barro entre nós. Pegou minhas mãos, colocou sobre o monte de barro, pôs o mecanismo rústico que dava suporte à argila para girar, e em seguida colocou suas mãos sobre as minhas. Foi nesse momento que senti.
Olhei bem fundo em seus olhos castanhos. Ela, segura de si, como só quem conhece os meandros do que faz é, me retribuiu o olhar como quem encontra uma nascente onde falta água. Senti vórtices de sensações: a argila fria em meus dedos me fez lembrar de jogos de criança; dos banhos de chuva e lama como algo novo, único e excitante; da descoberta de um alçapão sobre o último reservado do banheiro da escola primária, que dava acesso a uma sala escura de maquinários antigos, em que mistérios residiam calados pelo tempo; do calor do primeiro beijo escondido, e do prazer do contato com a primeira vagina. Sensações transcendentais movidas pelo ineditismo. Nascemos para descobrir, desbravar, nos surpreender.
- Agora sente a argila. Ela é uma pele. Ela é carne, vida, corpo.
Me concentrei ali, tentando pôr de lado minhas sensações, e o que houve foi o surgimento de uma pulsação em minhas mãos: eu sentia a argila, e sentia já não somente a mão dela na minha, mas todo o seu corpo: o calor de seu útero, o conforto de seu colo, a maciez de seus pés. Seu corpo nu, cru, que cheira a amor, café novo recém-torrado, moído e passado: sua pele negra, seu espírito livre, e então me senti mais homem também: completo, masculino, não discordante; embriagado pela alegria e paz de espírito. Entre lágrimas de felicidade pouco pude dizer:
- Me leva pra onde você quiser. – mas ela retrucou:
- Quem decide é você. O impulso é seu.
- Vamos para a gruta. Andar entre estalactites mais velhas que a humanidade. Adentrar a mais profunda escuridão. Mergulhar nas águas gélidas. E gozar infinitamente, fundindo nossos corpos, envoltos pelas lágrimas de Deus.
Com a argila nos unindo feito cola, ouvi o pesado movimento do ponteiro do relógio que é o meu corpo sobre o dela, marcando a rotação fatal: a aceitação divina de seu abraço, que não retorna, que não questiona.
Lindolfo R. Nascimento
São Paulo, 28/12/2011







